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REFORMA TRIBUTÁRIA E A ILUSÃO DA SIMPLICIDADE

27 de abril de 2026

Sem transição bem conduzida, o país corre o risco de enfrentar, por um bom tempo, exatamente o oposto do que se buscava.

A reforma tributária brasileira foi apresentada como uma solução para um dos principais entraves ao crescimento: a complexidade do sistema de impostos. Há avanços importantes no desenho proposto, especialmente na direção de um modelo mais transparente e menos cumulativo. Mas entre a promessa de simplificação e a realidade da implementação existe um desafio que tende a ser subestimado.

O novo sistema representa uma mudança estrutural relevante. A substituição de diversos tributos por mecanismos mais uniformes tem potencial para melhorar a alocação de recursos e aumentar a eficiência econômica. O problema é que esses ganhos não são imediatos. Eles dependem de um processo longo, custoso e, sobretudo, incerto

É aqui que a discussão precisa ser mais direta. O problema da reforma não está no destino, mas na travessia.

A transição prevista é extensa e implicará, por anos, a convivência entre o modelo atual e o novo sistema. Na prática, isso não simplifica, mas complica. Empresas terão que operar com duas lógicas tributárias ao mesmo tempo, o que significa mais custos, maior necessidade de adaptação e risco elevado de erros.

Não se trata apenas de adaptação técnica. Há um custo de aprendizado envolvido, que afeta desde grandes corporações até pequenos negócios. Sistemas precisam ser revistos, equipes treinadas e processos redesenhados. Esse esforço, embora necessário, consome tempo e recursos, reduzindo a capacidade das empresas de focar em expansão e investimento durante o período de transição.

Além disso, os efeitos não serão homogêneos. Enquanto alguns setores podem se beneficiar da redução de cumulatividade, outros — especialmente serviços — tendem a enfrentar aumento de carga. Pequenas e médias empresas, com menor capacidade de adaptação, devem sentir esse impacto de forma mais intensa.

Outro ponto pouco discutido é o efeito sobre preços. Ainda que a proposta busque neutralidade no longo prazo, o curto prazo tende a ser diferente. Ajustes de margem, mudanças na estrutura de custos e incerteza podem criar aumentos que o consumidor perceberá antes de qualquer benefício.

Há ainda uma camada adicional de risco. A regulamentação ainda está em construção, o que abre espaço para dúvidas, interpretações divergentes e judicialização. Esse ambiente tende a atrasar decisões e reduzir parte dos ganhos esperados.

A reforma tributária pode, sim, representar um avanço importante. Mas a simplificação prometida não se dará automaticamente. Sem uma transição bem conduzida, o país corre o risco de enfrentar, por um bom tempo, exatamente o oposto do que se buscava.

FONTE: PODER 360 – POR CARLOS THADEU

 

 

 

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