É a 11ª alta consecutiva desde o início da série histórica do Monitor RGF de Recuperação Judicial, no ano de 2023.
As recuperações judiciais bateram novo recorde no primeiro trimestre deste ano. Havia, no fechamento do período, um total de 5.931 empresas em processo de reestruturação no país, o que representa crescimento de 4,4% em relação ao trimestre anterior e de 22% na comparação anual. Entre janeiro e março, 319 pedidos foram deferidos, que somam R$ 18 bilhões em dívidas.
Os dados são do Monitor RGF de Recuperação Judicial, feito pela consultoria RGF & Associados. Essa é a 11ª alta consecutiva desde o início da série histórica do levantamento, que começou a ser feito no segundo trimestre do ano de 2023.
Chamou a atenção o fato de o crescimento ser menos acentuado em relação ao do último trimestre de 2025. No entanto, segundo a consultora Roberta Gonzaga, da RGF, essa desaceleração não sinaliza um melhor momento para as empresas. “O quarto trimestre [de 2025] foi um ponto fora da curva, não esperamos um movimento de desaceleração contínuo nos próximos trimestres”, diz.
Mauro Rochlin, professor de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV), atribui a dificuldade aos juros altos. “Não faz sentido culpar a atividade econômica, pois estamos em um cenário de crescimento, a despeito da desaceleração”, afirma. Segundo ele, o rali dos juros promovido pelo Banco Central (BC) desde o ano de 2024 e a manutenção da taxa Selic em 15% nos últimos meses é determinante para o mau desempenho das empresas.
Além da alta no volume total de empresas em recuperação, o índice da RGF – que mede a proporção das empresas em recuperação judicial a cada mil – aumentou de 2,13 para 2,18, mostrando que a proporção ainda é baixa. A base total de empresas ativas no país cresceu de 2,66 milhões para 2,73 milhões entre o ano de 2025 e o primeiro trimestre de 2026.
O setor agropecuário é o que apresenta situação mais delicada, com 14,42 empresas em recuperação judicial a cada mil. Em seguida, aparece a indústria, com 6,92 empresas; e a construção, energia e saneamento, com 4,08. Em situação melhor do que a média nacional estão os setores do comércio, com índice de 1,87 empresas em recuperação a cada mil; e serviços, com 1,04.
Na agropecuária, a atividade com maior volume de empresas em recuperação é o cultivo de soja, com um estoque de 243 companhias buscando solução judicial, especialmente por exposição à combinação entre custo financeiro elevado, risco climático, volatilidade de preços e dependência de capital de giro.
Na indústria, a confecção de peças de vestuário, as usinas de açúcar e a fabricação de embalagens de material plástico continuam liderando o número de empresas em recuperação, com 46, 41 e 40 unidades, respectivamente. A RGF atribui a pressão do setor às margens comprimidas e maior custo de financiamento.
No setor de construção, a atividade de incorporação imobiliária continua sendo o destaque, com estoque de 594 empresas com pedido de reestruturação judicial deferido. Segundo a RGF, o setor é particularmente sensível ao aumento de juros, formação de estoque e movimento de vendas, além de ter um ciclo longo de capital.
Em termos regionais, o Estado de São Paulo continua tendo o maior número absoluto de empresas em recuperação judicial, com 1.913, seguido por Rio Grande do Sul (514) e Paraná (488). Proporcionalmente, no entanto, Pernambuco tem a pior situação, com índice de 4,24 empresas em recuperação a cada mil. Em seguida, estão Alagoas (4,14) e Mato Grosso (4,07).
A pressão dos juros altos sobre todos os setores da economia vai continuar empurrando cada vez mais empresas para a recuperação, segundo a análise de Rodrigo Gallegos, sócio do RGF. “As instituições financeiras restringem o crédito quando o juro está muito alto, não porque não tenham dinheiro, mas porque avaliam que é muito mais difícil para a empresa pagar o endividamento”, diz.
“Maioria das empresas em recuperação tem problemas operacionais” — Mauro Rochlin
Segundo ele, os bancos impõem mais condições e exigem mais garantias. “O apetite das instituições para correr risco é menor”, afirma. Mesmo as empresas que ainda estão conseguindo financiamento agora, acrescenta, no futuro terão dificuldades, porque o endividamento com bancos não gera novos retornos, mas reduz a margem de lucro.
No terceiro trimestre, o valor das recuperações judiciais das 319 empresas que tiveram pedidos deferidos, de R$ 18 bilhões em dívidas, mostra uma desaceleração em relação ao quarto trimestre de 2025, mas não representa necessariamente uma melhora. No fim do ano passado, só a recuperação judicial da Unigel tinha somado quase R$ 20 bilhões. Segundo Roberta Gonzaga, o volume total dessas dívidas pode variar muito entre os trimestres, dependendo do porte das empresas.
Um dos principais casos no período analisado, lembrado pelos especialistas, foi o do Grupo Fictor, com uma dívida de cerca de R$ 4,3 bilhões. A empresa ficou conhecida pela tentativa frustrada de compra do Banco Master, liquidado pelo BC em novembro de 2025 e investigado pela Polícia Federal (PF) por supostas fraudes financeiras.
Segundo os especialistas, o cenário não vai melhorar enquanto as empresas não tiverem fôlego financeiro e crédito mais acessível. Rodrigo Gallegos defende que uma forma de atingir esse objetivo seria algum tipo de subsídio governamental para setores mais críticos, como o agronegócio. Além disso, oferecer programas de incentivo à governança nas empresas poderia ajudar.
Para Mauro Rochlin, a maioria esmagadora das empresas que recorre à recuperação tem problemas operacionais e não dá lucro. “A empresa vinha registrando prejuízos seguidos, até o momento em que um prejuízo é fatal, e ela precisa recorrer à recuperação. Mas isso não significa que ela encontrou um novo modelo de negócios ou que conseguiria consertar o que está errado em dois anos. Se fosse fácil se reinventar, já teria feito isso antes”, diz.
Nos casos em que não é possível recuperar o negócio, o Judiciário tem estado mais atento para não protelar a recuperação indefinidamente, completa Vamilson José Costa, sócio do Costa Tavares Paes Advogados. Segundo o Monitor RGF, a proporção de empresas que vai à falência após a recuperação se estabilizou em 29%. Os outros 71% conseguiram voltar a operar sem supervisão judicial.
Costa afirma que, aos poucos, é possível apontar um movimento de “remoralização” dos institutos da recuperação judicial e extrajudicial. “É preciso trazer o recurso da recuperação de volta ao seu objetivo, que é recuperar o que é possível recuperar. A lei não foi feita para o que não tem salvação.”
Para os trimestres seguintes, no entanto, segundo os especialistas, a perspectiva não é de melhora. O corte da Selic de 15% para 14,75% deve ter impacto limitado, diz Vamilson Costa. “Mesmo que os juros baixassem para 14%, ainda é inviável para qualquer ramo de negócio.”
Eventual redução dos juros, acrescenta o advogado, também seria eclipsada pela alta no preço dos combustíveis, fertilizantes e defensivos devido às restrições causadas pela guerra no Irã, o que torna o cenário especialmente desafiador para o agronegócio.
FONTE: VALOR ECONÔMICO – POR LUIZA CALEGARI — DE SÃO PAULO