Profissionais abandonaram bancas tradicionais para abrir a própria boutique.
O volume crescente de recuperações judiciais e extrajudiciais gerou uma intensa “dança das cadeiras” no mercado jurídico. Advogados experientes passaram a ser disputados por escritórios de grande porte para chefiar equipes focadas em reestruturações. E profissionais com anos de casa abandonaram bancas tradicionais para apostar em boutiques especializadas – também exploram novos nichos, como o agronegócio.
Os números impressionam. Em pouco mais de dez anos, o volume de pedidos de recuperação judicial praticamente dobrou, passando de 547 processos ajuizados em 2012, envolvendo 779 empresas, para 977 em 2025, com 2.466 empresas envolvidas. Os dados são da Serasa Experian.
Praticamente inexistente há duas décadas, a recuperação extrajudicial ganhou espaço. Em 2025, foram ajuizados 84 pedidos em todo o país, segundo o Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial (Obre). Os valores negociados por esse instrumento neste ano já superam os R$ 100 bilhões. Os requerimentos de falência, porém, entraram em declínio e respondem hoje a um terço do que eram dez anos atrás.
A substituição do modelo rígido da falência por formatos mais flexíveis e negociais de recuperação judicial e extrajudicial significa mais oportunidade para profissionais especializados, e uma nova chance para negócios à beira do colapso. Do lado das instituições financeiras, gestores precisam se preparar para negociações juridicamente complicadas e novas oportunidades para contratos de crédito sob medida.
No mercado de trabalho, o resultado é de investimento em pessoal altamente especializado. O escritório Tozzini Freire, por exemplo, foi buscar em uma grande instituição financeira a advogada Gabriela Martines Gonçalves para chefiar a área de reestruturação, recuperação de créditos e insolvência. Ela chegou em 2023 para montar um serviço focado em credores da área financeira, bancos, gestores, e fornecedores, principalmente indústrias.
A advogada avalia que o mercado está aquecido em decorrência do cenário econômico e das alterações promovidas na Lei nº 11.101, de 2005, que regula a recuperação judicial, a extrajudicial e a falência. Outro fator é a especialização da Justiça, com a disseminação de varas especializadas em direito empresarial, recuperação judicial e falências. O “amadurecimento do processo”, afirma, ajuda empresas em recuperação a buscar ajuda e incentiva gestores a apostar em investimentos e ativos de empresas em crise.
No escritório Mattos Filho a área de reestruturação e insolvência foi reforçada em novembro de 2025 pela advogada Victoria Villela Boacnin, sócia de um escritório tradicional na área, e integrante do Fórum Nacional de Recuperação Judicial e Falências (Fonaref) desde sua organização em 2020. Na banca, compõe um time de 15 profissionais, que substituiu um atendimento antes disperso em áreas como societário e contencioso.
Ela também diz acreditar que um dos principais fatores de incentivo para o segmento foi a reforma na legislação promovida em 2020 pela Lei nº 14.112, que alterou a estrutura de desembolsos da recuperação e atraiu instituições financeiras. “Antes da reforma, o financiamento era muito confuso”, avalia. Outro fator de mudança foi a crise das Americanas, em 2023, com impacto amplo no mercado, o que obrigou o sistema financeiro a se adaptar.
“É um mercado cíclico, mas sempre haverá empresas em insolvência” — Joel L. Thomaz Bastos
O advogado Eduardo Guimarães Wanderley encerrou uma carreira de 20 anos em grandes bancas para abrir seu próprio escritório, o CSW Advogados. Ele afirma que atuar em um escritório menor dá mais liberdade em um mercado que é atravessado por conflitos de interesse entre credores e devedores, e até credores entre si.
Em 2022, o advogado Paulo Campana também decidiu encerrar uma carreira de mais de 20 anos em grandes escritórios para abrir o Campana Pacca Advogados. A decisão ocorreu no contexto da reforma da Lei de Recuperação Judicial e Falência, no fim de 2020, em um cenário que, avalia, aumentou a segurança jurídica e deu mais garantias para o investidor financeiro.
Egresso de uma banca tradicional, Joel Luís Thomaz Bastos participou dos primeiros grandes processos de recuperação com base na lei de 2005, como os casos Parmalat e Varig. Decidiu abrir o próprio escritório, o TWK Advogados, em 2015, no contexto da crise econômica e dos impactos da Operação Lava-Jato.
Ele avalia que o setor de recuperação está superaquecido devido ao contexto dos juros altos e endividamento ocorrido na pandemia, o que atingiu principalmente o varejo. Outra mudança foi a chegada do agronegócio à recuperação judicial, facilitada pela reforma promovida em 2020. “É um mercado cíclico, mas sempre haverá empresas em insolvência precisando repactuar suas dívidas”, diz.
O aumento nos pedidos de recuperação no agronegócio virou o foco do escritório RSSA, com sede em Campinas (SP). Seu sócio, Ricardo Siqueira, saiu de uma banca tradicional, fez uma especialização em agronegócio pela Universidade de São Paulo (USP) e hoje tem mais da metade de sua carteira de clientes no agronegócio.
O foco no campo começou anos atrás com o caso da Usina Santa Rita, em São Paulo, e a renegociação de um passivo de cerca de R$ 4 bilhões. Hoje atende clientes em vários Estados e vários ramos de atividade. “O agronegócio está pressionado pelos juros altos, pelas mudanças no perfil de financiamento e cenário externo, que elevou o preço dos insumos”, avalia.
FONTE: VALOR ECONÔMICO – POR FERNANDO TEIXEIRA —DE SÃO PAULO