Se cenário fiscal se deteriorar, BC pode se ver obrigado a apertar a política além do planejado, diz Secemski, do Barclays
Diante das incertezas relacionadas ao teto de gastos em 2022 com a perspectiva de um Bolsa Família ampliado e com dúvidas em torno do pagamento dos precatórios, analistas já apontam que a possibilidade de deterioração do debate fiscal aumenta as chances de a Selic terminar o atual ciclo em níveis ainda mais altos do que os estimados no momento. Enquanto o Boletim Focus aponta para uma taxa de 7,25% tanto no fim deste ano quanto em 2022, a curva de juros embute em seus preços uma Selic entre 9,25% e 9,50% no próximo ano.
No pregão de ontem, inclusive, os juros futuros voltaram a fechar em alta firme, no momento em que o mercado continua a precificar os riscos fiscais. Declarações do ministro da Cidadania, João Roma, de que o novo Bolsa Família não irá furar o teto de gastos deram alívio momentâneo à curva de juros, mas logo depois as taxas já voltaram a subir. Assim, na B3, a taxa do DI para janeiro de 2022 subia de 6,485% na sexta-feira para 6,525% ontem, enquanto a taxa do DI para janeiro de 2025 escalava de 9,04% para 9,15%.
Entre os contratos de prazo mais longo, como o DI para janeiro de 2031, a taxa subiu de 9,78% para 9,99% e, na máxima do dia, novamente chegou a 10%.
“A deterioração do debate fiscal à medida que nos aproximamos das eleições aumenta a possibilidade de uma taxa Selic terminal mais alta devido a um risco de instabilidade financeira potencialmente maior contaminando os preços dos ativos e as expectativas inflacionárias”, apontam os economistas Cassiana Fernandez, Vinicius Moreira e Cristiano Souza. do J.P. Morgan.
Em relatório enviado a clientes, os economistas observam que o debate em torno da política fiscal se agravou diante de propostas que sugerem uma postura mais expansionista, “contribuindo para a percepção de aumento dos riscos fiscais e financeiros”. Para eles, “as propostas em debate poderiam aumentar os gastos permanentes, postergar outros gastos enquanto tentam contornar as regras fiscais e, ao mesmo tempo, reduzir as receitas – todos desafios para um país que precisa de um ajuste fiscal de médio prazo”. Ao menos por enquanto, o J.P. Morgan projeta que a Selic fechará o ano em 7,5%.
O economista-chefe para Brasil do Barclays, Roberto Secemski, também projeta uma taxa básica de 7,5% no fim do atual ciclo de aperto, mas pondera que um viés fiscal mais expansionista pode pesar sobre os rumos projeados para o juro básico.
“Caso haja deterioração do cenário fiscal que leve a maiores incertezas com relação à credibilidade do teto de gastos e à sustentabilidade da dívida pública, com consequências negativas para a taxa de câmbio e formação de expectativas inflacionárias, o BC pode se ver obrigado a apertar a política monetária para além do planejado, impondo risco de alta para nossa Selic terminal de 7,5%”, aponta Secemski.
O economista observa que, até a reunião de maio, o Copom citava nos riscos de alta para a inflação que “novos prolongamentos das políticas fiscais de resposta à pandemia que piorem a trajetória fiscal do país” poderiam pressionar os prêmios de risco do país. Já no encontro de junho, o colegiado passou a apontar que “novos prolongamentos das políticas fiscais de resposta à pandemia que pressionem a demanda agregada e piorem a trajetória fiscal podem elevar os prêmios de risco do país”.
Assim, poderia haver uma dupla preocupação do Copom, “não somente com relação à deterioração fiscal impactando preços de ativos e eventualmente expectativas de inflação, mas também o próprio impulso à demanda agregada em si via consumo, representado pela expansão dos benefícios sociais”.
Além de mostrar que a mediana das projeções dos economistas para a taxa de juros está em 7,25% tanto em 2021 quanto em 2022, o Focus também mostrou uma nova rodada de deterioração das expectativas de inflação do próximo ano, que passaram de 3,81% para 3,84%.
“Em tese, o tom mais duro e incisivo do Banco Central no combate à inflação deveria ter produzido, no mínimo, estabilidade, e, no máximo, queda das expectativas. Afinal, a autoridade monetária se demonstrou mais do que disposta a sacrificar atividade para garantir a meta de inflação do ano que vem”, aponta Alejandro Ortiz Cruceño, analista econômico da Guide.
Ele, contudo, observa que, mesmo sem a divulgação de índices de inflação com surpresa negativa na semana passada, houve uma piora das expectativas. “Entendemos que o movimento provavelmente reflete uma contaminação da política fiscal. Grandes incertezas permeiam a condução da política fiscal, e os mais recentes desenvolvimentos (precatórios, expansão do Bolsa Família e impacto fiscal da reforma do IR) têm gerado mais preocupações do que qualquer outra coisa“, diz o analista.
Para Ortiz Cruceño, “mais inflação, proveniente de um câmbio sistematicamente depreciado, se torna norma” em um cenário conturbado. “O trabalho do BC não poderia ser mais difícil.
FONTE: Valor Econômico – Por Victor Rezende e Felipe Saturnino