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DESISTÊNCIA DE IPO ALIMENTA VENDA PRIVADA DE EMPRESAS

26 de julho de 2021

Ofertas fracassadas movimentam fusões e aquisições.

Parte das empresas que desistiram de fazer oferta pública de ações neste ano está envolvida em processos de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês), apurou o Valor.

Sem conseguir levantar recursos em bolsa para promover expansão, algumas companhias procuram sócios em transações privadas para impulsionar seus negócios. Em determinadas situações, as operações têm o objetivo de dar saída a fundos de private equity (que compram participação acionária) do capital dessas empresas.

As ofertas de ações já movimentaram R$ 100,7 bilhões do início do ano até o dia 22 de julho, em 54 transações. Dessas, 35 foram operações de estreantes na bolsa (IPOs) e o restante, de companhias já listadas (ofertas subsequentes ou “follow-on”), de acordo com levantamento do Santander. Entre banqueiros de investimentos, há quem aposte que este ano atingirá a marca recorde de R$ 150 bilhões. Mesmo com o mercado de capitais aquecido, porém, 40 companhias desistiram de ir à bolsa em 2021 até agora, segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Mesmo com o mercado de capitais aquecido, porém, 40 companhias desistiram de ir à bolsa em 2021 até agora Parte das ofertas – em geral, IPOs – deixadas pelo caminho está engrossando as operações de M&A. Até o dia 21, foram movimentados US$ 54,8 bilhões em 286 transações, ante os US$ 11 bilhões (253 operações) no mesmo período do ano passado, segundo a consultoria Dealogic.

A rede de móveis e decoração Tok&Stok está em busca de um investidor privado para o seu negócio, de acordo com três pessoas a par do assunto. A empresa tem 60% de seu capital nas mãos do fundo Carlyle (cujas operações foram transferidas para a SPX) e adiou os planos de ir à bolsa no início do ano “por não ter encontrado as condições ideais de mercado. ” Fontes familiarizadas com o assunto afirmam que o Carlyle, que adquiriu o controle da companhia por R$ 700 milhões em 2012, já vem há algum tempo buscando uma porta de saída para esse investimento.

Uma das principais empresas de decoração do país, a Tok&Stok tinha planos de fazer IPO em 2019, mas não levou o processo adiante. No fim do ano passado, fez o registro na CVM, de olho na movimentação de concorrentes, como Madeira Madeira, Mobly e Westwing.

Contudo, diferentemente dos competidores, a companhia fundada em 1978 não tão estava tão bem preparada para a venda digital, segundo as fontes. Com a troca de gestão no ano passado, a rede tem investido no e-commerce e conversado com potenciais interessados em fazer um aporte, diz uma delas. Uma volta ao mercado de capitais não é descartada. Sob a gestão do Carlyle, há também a rede de restaurantes Madero, que está se preparando para ir à bolsa, e a varejista de brinquedos Ri Happy.

Concorrente da Tok&Stok, a Westwing levantou R$ 1,1 bilhão na bolsa no início do ano, mas a performance de suas ações desde então é negativa. Os papéis fecharam na sexta-feira a R$ 9,03, queda acumulada de 30,5% desde o dia 10 de fevereiro, quando estrearam na bolsa. Fontes afirmam que a companhia “está em conversas com concorrentes” para avaliar alternativas – Lojas Renner e Riachuelo foram procuradas, mas não levaram a conversa adiante.

Assim como a rede de móveis e decoração, a empresa LG Informática, especializada em tecnologia para gestão de recursos humanos, decidiu interromper o processo de IPO. A empresa, que pretendia levantar R$ 900 milhões com a operação, contratou o banco Rothschild para encontrar um comprador para seu negócio, segundo uma fonte. Em julho, a empresa anunciou a aquisição da Norber, que reforçará o ecossistema tecnológico da companhia, tornando-se mais competitiva para um potencial controlador de seus negócios.

A busca por um investidor privado também está nos planos da rede de materiais de escritório Kalunga, que desistiu de levar adiante seus planos de abertura de capital neste momento. A empresa, que faturou R$ 1,8 bilhão no ano passado, está atrás de recursos para crescer e também para reduzir seu endividamento, que somava quase R$ 738 milhões no fim de 2020. Os controladores não descartam retomar o processo de IPO num momento mais favorável.

Eduardo Miras, chefe do banco de investimento do Citi, não vê o movimento de IPO como “um início nem como um fim” do ciclo para uma empresa. Com a desistência de abertura de capital, as empresas podem buscar aporte privado e depois retomar os planos de ir à bolsa. Segundo ele, o preço das ações reflete muitas vezes o cenário de curto prazo. “IPO dá o preço, não o valor. ”

Para Diogo Aragão, responsável pela área de fusões e aquisições do Bank of America (BofA), é um caminho natural as empresas buscarem o mercado de capitais para se financiar. O executivo observa, contudo, que a transição para o M&A depois de uma tentativa frustrada de ir à bolsa pode ter uma dinâmica diferente, uma vez que o valor do ativo já foi testado pelo mercado.

Há casos também de companhias privadas que podem se fundir com outras listadas na bolsa, em um processo conhecido como ‘IPO reverso’, explica o executivo do BofA.

Até o fim do ano, a perspectiva é que ofertas de ações e operações de fusões e aquisições se mantenham firmes. “Vimos um movimento grande de empresas de consumo, varejo e saúde indo à bolsa, criando um valor de referência no mercado”, diz Aragão.

Gustavo Miranda, responsável pela área de banco de investimento do Santander, vê uma tendência de consolidação forte nos próximos meses. Para ele, os processos de M&A que envolvem empresas que eventualmente desistiram de um IPO são mais fáceis porque essas companhias já passaram por diligências.

É o caso da Compass, empresa de gás do grupo Cosan, que recebeu em maio um aporte de R$ 810 milhões liderado pela gestora Atmos, meses depois de desistir do IPO. A operação foi bem vista pelo mercado, criando maior valor à companhia. A Compass é apontada como a favorita para levar a Gaspetro, que pertence à Petrobras.

Procurada pelo Valor, a LG Informática informou que “está analisando uma série de alternativas para o crescimento”. Em nota, a Tok&Stok disse que está comprometida com o aperfeiçoamento de sua estrutura logística e em promover a melhor experiência ao consumidor. “A Tok&Stok dá continuidade aos planos de expansão e desenvolvimento em 2021, de forma independente ao processo de IPO que vinha conduzindo (…). Nosso objetivo é ser uma empresa de capital aberto no médio prazo, assim que identificarmos um cenário com mais sinergia ao perfil de empresa”, disse Octávio Pereira Lopes, presidente da companhia, por meio de um comunicado.

A Kalunga, por meio de sua assessoria, disse que optou pela desistência da oferta, mas manteve registro de companhia aberta. A empresa afirmou que está “adaptando durante esse período a sua governança para o Novo Mercado e se colocando apta a acessar o mercado de capitais de forma pública ou privada e que acompanha as oportunidades e captação de recursos em linha com seu plano de estratégia.”  Carlyle, Westwing e Renner disseram que não comentam rumores de mercado.

FONTE: Valor Econômico – Por Mônica Scaramuzzo

 

 

 

 

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