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MERCADO VÊ CHANCE MAIOR DE ELEVAÇÃO DE 1PONTO NA SELIC

15 de junho de 2021

Para analistas, expectativas de inflação em alta pressionam Copom.

Às vésperas da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, ganhou força no mercado a percepção de que o colegiado pode surpreender e elevar a Selic em 1 ponto percentual nesta semana. A aposta foi renovada ontem, após o Boletim Focus trazer mais uma rodada de deterioração das expectativas de inflação de 2022, que subiram de 3,70% para 3,78%.

Com esse cenário em mãos, o mercado futuro de juros apontava, no fechamento de ontem, 38% de chance de uma elevação de 1 ponto percentual na Selic amanhã – a taxa básica está em 3,5% anuais. No início da semana passada, essa possibilidade estava abaixo de 10%. O mercado de opções de Copom também sofreu impacto da mudança no humor dos agentes e, agora, já aponta para 17% de chance de a Selic subir para 4,5%. Na semana passada, a probabilidade desse cenário ocorrer era de 5%.

O economista-chefe da Vinland Capital, Aurelio Bicalho, diz ser “totalmente coerente” que o Copom analise a possibilidade de aumentar a Selic em 1 ponto nesta semana. “Dentro de um orçamento de três pontos percentuais de aperto até a Selic chegar ao nível neutro, caberia tranquilamente uma alta de 1 ponto agora e ajuste de igual magnitude em agosto para só depois reduzir o passo”, diz Bicalho, que projeta Selic em 7% no fim do atual ciclo de alta de juros.

Para Bicalho, o Copom deve concluir nesta reunião que não precisa mais de uma sinalização de ajuste parcial nos juros e que, para colocar as expectativas de inflação no centro da meta, “provavelmente vai ter de normalizar a taxa de juros”. Como a Selic está em 3,5% e o Copom terá uma confiança maior de que precisa ir para 6,5%, há um orçamento de três pontos percentuais de normalização. “Aí vem a estratégia de política monetária. Sem dúvida a soma de atividade mais forte e deterioração das expectativas vai fazer com que a alternativa de alta de 1 ponto seja debatida.”

Na pesquisa de semana passada do Valor com 104 instituições financeiras e consultorias, apenas a Sicredi Asset projetava uma alta de 1 ponto na taxa básica nesta semana. “Acreditamos que o Banco Central poderia acelerar esse ajuste, o que demonstraria sua disposição em fazer o esforço necessário para controlar a inflação e ajudaria a conter as expectativas de inflação de 2022, as quais estão se afastando da meta rapidamente”, diz Filipe Stona, economista da gestora.

 Caso não adote uma medida agressiva, o profissional nota que o Copom pode estar em uma situação “ainda mais complicada” na próxima reunião, “dado que não vemos um vetor de desaceleração da inflação ou dos núcleos para os próximos meses, o que manteria as expectativas de 2022 subindo e se distanciando ainda mais da meta”.

Com o aumento das apostas em uma alta mais forte da Selic nesta semana, a taxa do DI para janeiro de 2022 subiu ontem de 5,295% para 5,34%; enquanto a taxa do DI para janeiro de 2027 caiu de 8,54% para 8,44%. Esse movimento tem se refletido no juro real. Cálculo do Valor Data a partir do swap de juro de 360 dias e das expectativas de inflação do Focus aponta que a taxa de juro real ex-ante atingiu 1,89% na semana passada, maior nível desde agosto de 2019.

 Nesse contexto, a economista-chefe para Brasil do J.P. Morgan, Cassiana Fernandez, diz, em relatório enviado a clientes, que espera que o Copom aumente a Selic em 0,75 ponto amanhã. Ela acredita, ainda, que o comunicado da decisão “sairá com uma mensagem mais ‘hawkish’”, ou seja, alinhada a uma leitura mais dura e que aponte para a retirada de estímulos, em resposta à nova deterioração das expectativas inflacionárias.

“Não podemos descartar a possibilidade de que o BC force ainda mais o aperto e aumente a Selic em 1 ponto percentual nesta semana”, escreve a economista, no caso de uma avaliação de que as expectativas de inflação de 2022 estão “significativamente acima da meta”. Ela lembra, no relatório, que esse não é o cenário-base do J.P. Morgan, mas ressalta que “o BC já adotou essa estratégia quando iniciou o ciclo de normalização com alta de 0,75 em março”.

 O economista-chefe da Truxt Investimentos, Arthur Carvalho, por sua vez, avalia que o Focus “deixou implícito que a dinâmica inflacionária está materialmente pior do que o esperado”. Ele, contudo, não vê chances elevadas de uma alta de 1 ponto na Selic nesta semana.

“Você tem um Banco Central que enxerga que o passo de 0,75 ponto já é agressivo. Desde o começo, ele disse que preferia fazer mais para o ciclo ser menor. Ele já sinalizava que via esse passo como agressivo”, nota. Para o economista da Truxt, embora as expectativas de inflação estejam se distanciando do centro da meta em 2022, o BC “não perdeu o controle completo do processo”.

Assim, Carvalho acredita que o mais importante na comunicação está na sinalização de que o ciclo de normalização não será parcial. “Se o BC acha que o ajuste parcial vai ancorar as expectativas, o mercado está dizendo que isso não será possível. É mais importante sinalizar que o tamanho do ciclo será diferente”, afirma. A Truxt vê a Selic em 6,5% no fim do ano, mas aponta que a chance de o juro entrar em um território restritivo “talvez já vire o cenário-base”.

FONTE: Valor Econômico Por Victor Rezende e Felipe Saturnino — De São Paulo

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