Criados nos EUA em 1989, os ETFs, que numa tradução literal seriam fundos negociados em bolsa, tornaram-se um mercado gigante por lá.
Como um grande facilitador da diversificação, esse veículo de investimento que, em geral, replica um índice de ativos, caiu no gosto do público e dos consultores de investimentos nas terras do Tio Sam. Pouco mais de trinta anos após seu surgimento, há centenas de ETFs listados nas principais bolsas, que oferecem exposição a diversas classes de ativos, com recortes geográficos, setoriais, por tamanho de empresa etc.
Há os alavancados, os contrários (que replicam posições vendidas) e, é claro, os contrários alavancados. Outros replicam estratégias e fatores de risco documentados na literatura de finanças. Tem ETFs de ETFs. Há, ainda, os ETFs ativamente geridos, que podem desviar dos seus índices de referência. Em suma, o mercado americano criou alternativas para todos os gostos possíveis e imagináveis. São quase 1.400 ETFs, cujo valor de mercado soma mais de US$ 4 trilhões.
Não foi apenas nos EUA que os ETFs deslancharam. No resto do mundo, há um mercado significativo, com valor superior a US$ 2 trilhões. Dentre as vantagens comumente atribuídas aos ETFs estão o baixo custo e a facilidade de negociação, similar a uma ação, com preços vivos ao longo dos pregões.
No Brasil, os ETFs existem desde 2004. Apesar disso, pode-se dizer que esse produto não vingou no nosso mercado. Temos algumas poucas dezenas de ETFs listados, dos quais, a grande maioria, tem pouca liquidez. Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), o valor total desse segmento em dezembro de 2020 era de apenas R$ 33 milhões, menos de dois milésimos do observado nos EUA, ou cerca de 3% do valor alocado em fundos multimercados por aqui
No que tange a assuntos econômicos e financeiros, é comum o Brasil ser uma exceção ao padrão internacional e, em geral, há razões objetivas que explicam nossas anomalias. Tentemos entender o caso dos nossos ETFs e traçar alguns prognósticos.
Uma primeira explicação para a baixa adesão aos ETFs aqui no Brasil está relacionada ao comportamento dos investidores. Durante muito tempo, convivemos com taxas de juros muito elevadas que eram um enorme desincentivo à tomada de risco por parte dos investidores e à sua educação sobre os diferentes produtos financeiros. Ser poupador bastava para ter retornos de dois dígitos e, por mais que os nossos juros tenham caído muito nos anos recentes, o legado dos juros altos ainda se faz presente.
Com a busca de melhores oportunidades de rendimento, muitos investidores acabaram migrando para plataformas de investimentos. Nesse movimento, encontramos uma segunda explicação para a baixa utilização de ETFs. A maioria das plataformas remunera os assessores de investimento com base em rebates pagos pelos produtos financeiros investidos. No caso dos ETFs, não há pagamento de rebate e isso incentiva os assessores a não recomendarem essa modalidade.
À primeira vista, poder-se-ia pensar que esse caso configura um total desalinhamento de interesses entre agente, o assessor, e principal, o investidor. Porém não é tão simples assim. Parte do atrativo dos ETFs mundo afora decorre do fato de apenas uma pequena parcela dos investidores ativos ser capaz de superar a exposição passiva ao mercado de forma consistente.
Aqui, porém, há diversas idiossincrasias como grandes movimentos antecipados de juros e intervenções governamentais em setores e empresas que dão a uma parcela mais significativa dos gestores ativos a capacidade de superar o mercado. Essa pode ser considerada uma terceira razão pela qual os ETFs não vingaram por aqui.
Tudo isso, porém, pode ser revertido em um espaço de tempo relativamente curto. A nossa taxa de juros na mínima histórica tem empurrado muitos investidores para fora do conforto do CDI. Nesse processo, a busca por educação financeira também tem crescido a olhos vistos.
Concomitantemente, vemos importantes plataformas de investimentos migrando para um modelo de remuneração como percentual do patrimônio gerido, o que coloca os ETFs em pé de igualdade para competir com outros produtos.
Em resumo, a máxima de Policarpo Quaresma, segundo a qual, no Brasil, “em se plantando tudo dá” não encontra respaldo no mercado de ETFs, mas há elementos para acreditar que o futuro será diferente. Não é por outra razão que nomes de peso do mercado brasileiro e global estão intensificando duas apostas nesse segmento por aqui. A consolidação dos ETFs será um sinal de amadurecimento do nosso mercado. Nesse cenário, quem ganha são os milhões de investidores.
João Marco Braga da Cunha é gestor de portfólios na Hashdex E-mail: jmarco@fgvmail.br
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FONTE: Valor Econômico – Por João M. B. da Cunha