Economistas do mercado financeiro relativizaram, em duas reuniões realizadas ontem com diretores do Banco Central, o impacto das ações do presidente Jair Bolsonaro sobre a Petrobras. Embora sejam negativas e dificultem o trabalho da autoridade monetária, elas ainda não justificam uma revisão do cenário com que trabalham.
Por outro lado, os profissionais manifestaram uma preocupação maior com a situação fiscal do país em relação ao último encontro, em janeiro, quando a discussão sobre a volta do auxílio emergencial ainda era incipiente. Além disso, elevaram suas expectativas de alta de Selic já em março.
Segundo participantes do primeiro grupo que se reuniu com o BC, a leitura predominante sobre o episódio da Petrobras foi a de que se trata de mais um ruído sem implicações para o quadro estrutural de reformas. Ninguém levantou a hipótese que Bolsonaro “vá dilmar”, como resumiu um dos presentes.
Ainda assim, o caso é negativo e pode acabar prejudicando a aguardada melhora do câmbio – com reflexos secundários sobre a inflação. Os economistas notaram que a mediana das projeções para 2021 subiu desde o encontro de janeiro, de algo entre 3,5% e 3,6% para entre 4% e 4,2%. Por outro lado, o consenso é o de que essas pressões devem refluir junto com as commodities, o que mantém ancorada a expectativa para 2022.
Sobre o auxílio emergencial, que “ninguém estava considerando” no último encontro, de acordo com outro participante, o consenso foi de que o gasto adicional deve ficar entre R$ 30 bilhões e R$ 40 bilhões. Alguns dos presentes, no entanto, levantaram o temor de que essa cifra cresça, a depender das negociações do Congresso.
Mais analistas também já trabalham com um cenário de alta de juros em março, tendo em vista a trajetória recente da inflação, de acordo com um presente no segundo encontro. “As projeções de inflação têm aumentado e, com novos riscos no radar, tendem a aumentar mais, o que só contribui com uma alta de juros mais cedo”, disse outro economista.
De acordo com outro interlocutor, mais gente acha que a Selic deve fechar 2021 entre 3,5% e 4%. “A gente está com 4,5%. Entre a última reunião e agora, com a questão fiscal e política, ambientes de choque de inflação, estou incomodado um pouco com a certa tranquilidade que eles estão com inflação.”
FONTE: Valor Econômico — Por Marcelo Osakabe e Felipe Saturnino — De São Paulo