Cenário desafiador exige do Brasil passos que melhorem consistentemente o ambiente de negócios, alertam os líderes das empresas vencedoras do Valor 1000.
Dois temas recorrentes na agenda corporativa ganharam um sentido maior de urgência. A reforma tributária do consumo, que entra em nova fase em 2027, rumo à implementação de um sistema mais simples e eficiente – há muito necessário – até 2033 é um deles. O ajuste das contas públicas, outro item essencial na pauta, encontra-se em situação distinta: com implementação ainda incerta, apesar de presente no debate eleitoral.
Essas duas frentes, sempre essenciais para a qualidade do ambiente de negócios no Brasil, estão entre as principais preocupações das maiores empresas do país apontadas pelo ranking Valor 1000, premiadas nesta terça-feira (8) em evento realizado no hotel Unique, em São Paulo.
A pesquisa é conduzida pela Serasa Experian, em parceria com o Valor e Época Negócios, com homologação de critérios do Centro de Estudos em Finanças da FGV/SP.
A resiliência das empresas brasileiras, com crescimento de receita mesmo em um cenário desafiador, foi destacada pelo diretor-geral da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio, Frederic Kachar. Ele ressaltou a dificuldade de queda real nos juros de curto e médio prazos com a persistência da dívida pública. Para Kachar, a ausência de debate qualificado sobre ajuste fiscal nas campanhas à presidência é motivo de frustração. “Esse tema é inadiável, um ajuste fiscal precisa ser feito”, afirmou.
“No Brasil, vivemos crises institucionais e desafios que precisam ser encarados com urgência”, disse a diretora de redação do Valor e das marcas segmentadas de economia e negócios da Editora Globo, Maria Fernanda Delmas na abertura do evento.
“O trabalho das empresas, que hoje premiamos, é parte inerente da vida dos cidadãos e da formação de um país. Sabemos que é um trabalho em constante construção, com acertos e erros, e que recebe nossa cobertura crítica como forma de contribuir para uma sociedade melhor. E que pode inspirar muitos outros negócios e profissionais a trilhar um caminho melhor também”, afirmou. “Buscamos olhar a saúde financeira das empresas, mas também a responsabilidade maior de cada corporação. Os compromissos com a comunidade no entorno, com o consumidor, com seus funcionários, com o poder público, com a cadeia de fornecimento, com o meio ambiente e com os investidores.”
É com esse olhar amplo que os líderes das empresas vencedoras analisam o cenário atual.
“O social e o fiscal têm que andar de mãos dadas. Quanto mais disciplinado você for no aspecto fiscal, mais controla a inflação e abre espaço para fazer programas sociais”, diz Milton Maluhy Filho, presidente do Itaú Unibanco, a Empresa de Valor 2026 e campeã no setor financeiro.
O executivo sugere que as contas públicas estejam no topo das prioridades de todos os candidatos. “Qualquer que seja o vencedor da eleição, precisa urgentemente propor uma reforma orçamentária, trazer mais flexibilidade para o orçamento, retirar boa parte dos gastos fixos e enfrentar esse problema. É preciso abrir espaço para cortar gastos e priorizar melhor os investimentos”, afirma. “Esse será um trabalho do Executivo, do Legislativo, da sociedade. Assim, será possível abrir espaço para o crédito privado, nacional ou estrangeiro, para que possamos falar de “
“O social e o fiscaltêm que andar de mãos dadas”— Milton Maluhy, CEO do Itaú, Empresa de Valor 2026
A trajetória da dívida pública preocupa empresários da indústria. Gustavo Werneck, CEO da Gerdau – campeã no setor de metalurgia e siderurgia no Valor 1000 -, faz uma observação enfática. “A falta do ajuste fiscal pressiona a taxa de juro e a inflação. Estamos próximos de um ponto de não retorno. Não dá mais para governantes e postulantes a governantes ficarem apenas no discurso. Não dá para começar 2027 sem um compromisso de ajuste focado em redução do gasto público”, afirma. “Sem ajuste, não há investimento público. Sem crescimento econômico, as empresas não investem. É uma questão fundamental para a decisão de investimentos da Gerdau.”
Essa é a visão também de Alberto Kuba, CEO da WEG, primeira colocada no setor de mecânica. Ele ressalva que a companhia trabalha com planos de longo prazo, mas mostra preocupação com o cenário atual. “Se não houver ajuste, a percepção de risco [alto] do país vai continuar.”
Na avaliação de Henrique Fernandez, CEO da Intelbras, campeã no setor de eletroeletrônica, o saneamento das contas públicas é imperativo. “Sem isso, os juros permanecem elevados por mais tempo, o que encarece o crédito, retrai o consumo e adia decisões de investimento”, diz. “Juros altos e prolongados significam uma demanda seletiva e ciclos de decisão mais longos entre os clientes”, pondera o executivo.
Valter Pitol, diretor-presidente da Cooperativa Agroindustrial Consolata (Copacol), líder do ranking em agronegócio, projeta um cenário delicado, mesmo com os bons resultados obtidos pela empresa. “Estamos visualizando [para 2027] muita incerteza fiscal, custo de capital mais alto e real desvalorizado”, diz o executivo. Segundo ele, a deterioração do quadro poderia levar a Copacol a adiar investimentos programados.
A preocupação perpassa diferentes ramos de negócios. Diogo Corona, CEO da Smart Fit – campeã em serviços especializados -, diz que a questão fiscal influencia todo o ambiente macroeconômico: juros, inflação, câmbio e confiança em geral. “Um ambiente de maior previsibilidade contribui para as decisões de investimento e para o consumo”, afirma.
“Precisamos de juros em um patamar menos restritivo”, diz Leonardo Mesquita, coCEO da Cury Construtora, vencedora no setor de empreendimentos imobiliários. “Quando os juros voltarem a níveis normais, teremos a possibilidade de fazer investimentos olhando mais para a frente.”
Previsibilidade, avaliam os executivos, seria especialmente desejável num momento em que as companhias passam por intensa adaptação, por causa da reforma Tributária em andamento.
A vigência da Contribuição Social sobre Bens e Serviços (CBS) exige mudanças no faturamento, na contabilidade e nos processos de compra da Sabesp, campeã no setor de água, saneamento e serviços ambientais. “O principal desafio será conduzir a transição com segurança, preservando a continuidade da operação e a qualidade das informações fiscais”, afirma Carlos Piani, CEO.
Éder Odvar Lopes, CEO da Inpasa, primeira colocada em bionergia, acredita que a reforma representa uma transição histórica. Ele aponta que o maior entrave pode estar na regulamentação de regimes específicos, como os incentivos regionais. “Para uma companhia com operações em diferentes Estados e extensas cadeias de fornecedores, o principal trabalho está na adaptação, ao novo modelo, de sistemas, processos fiscais, contratos e fluxos financeiros”, explica.
Marcelo Oberg, CEO da Sotreq, primeira colocada em comércio atacadista e exterior, sustenta que o maior teste não está na adaptação a novas alíquotas e tributos, mas na preservação do capital de giro. “É fundamental ter mecanismos que garantam que o estoque de créditos do regime anterior, especialmente do ICMS, seja recuperado, para que as companhias mantenham um fluxo saudável”, avalia.
Na RD Saúde, dona das redes Droga Raia e Drogasil e vencedora no comércio varejista, o tratamento tributário diferenciado previsto para alguns medicamentos é considerado um avanço. “A medida pode contribuir para ampliar o acesso e a adesão a tratamentos, especialmente entre pacientes crônicos”, projeta o CEO Renato Raduan. “Estamos avançados nessa agenda, com nossos sistemas e processos sendo preparados para garantir uma transição segura e adequada ao novo modelo” diz o executivo que considera a reforma positiva do ponto de vista estrutural.
André De Angelo, CEO da Acciona Brasil, líder em construção e engenharia, chama a atenção para o efeito da reforma nos contratos de concessão de longo prazo. “Eles vão atravessar diferentes regimes tributários ao longo da vigência”, diz. “Isso afeta a modelagem financeira e exige um tratamento de reequilíbrio junto aos poderes concedentes.”
De acordo com Carlo Bergamaschi, diretor executivo da Valgroup, campeã no setor de plásticos e borracha, a adaptação é muito trabalhosa, especialmente para uma companhia com operações em diferentes Estados e cadeia de valor complexa. Mudanças nas regras e prazos de implementação das etapas da reforma aumentam a complexidade do processo. Mesmo assim, mostra-se animado. Acredita que o novo modelo pode trazer avanços relevantes, como redução da sonegação e da informalidade – “o que significa um ambiente de concorrência mais justo”, afirma.
A edição 2026 do ranking avaliou 1.034 empresas por desempenho financeiro e, numa segunda fase, as que obtiveram melhor colocação foram analisadas por critérios ESG (práticas ambientais, sociais e de governança), para que fossem indicadas, então, as líderes em 28 setores da economia.
Em um ano que somou muitos desafios – da alta de juros e endividamento no cenário interno a guerras com impactos fortes nas cadeias de suprimento globais e grande tensão geopolítica – esse conjunto de empresas mostrou crescimento de receitas e lucro.
O Prêmio Valor 1000 é uma realização do Valor Econômico e de Época Negócios e conta com patrocínio ouro de Alelo, Caixa Seguridade, Huawei e Deloitte; patrocínio prata de FGV Educação Executiva, Vibra, MBRF, Febraban e XP; e patrocínio bronze de Intelbras, CNI Sistema Indústria, Sicredi e Mineração Taboca. A premiação tem a Azul como companhia aérea oficial e GAC como carro oficial do evento, o apoio de Fiesp e Eletromidia e a parceria de Serasa Experian e FGVcef/FGV-SP. (Com Marcos Coronato)
FONTE: VALOR ECONÔMICO – POR JACILIO SARAIVA — SÃO PAULO