No setor de serviços, o risco não é só “pagar mais”. É perder competitividade e desgastar relações comerciais.
A reforma tributária deixou de ser tema de projeto. Virou cronograma, sistema, contrato e preço. Para prestadores de serviços, a transição exige decisão agora, com execução ao longo de 2026, antes que o efeito apareça na margem e no caixa. O erro comum é tratar a reforma como evento futuro quando ela já virou rotina de gestão.
O desenho da reforma substitui, gradualmente, a tributação atual sobre consumo por um modelo de IVA dual, estruturado em CBS – Contribuição sobre Bens e Serviços e IBS – Imposto sobre Bens e Serviços.
A promessa é conhecida: simplificar, dar transparência e reduzir distorções. Entretanto, no setor de serviços, a conta tende a apertar por um motivo simples: menos espaço para créditos e exposição maior à alíquota nominal.
Em empresas prestadoras de serviços, a base econômica costuma ser mão de obra, know-how e despesas operacionais, não insumos tributados com “crédito cheio”. Isso cria um atrito com o coração do IVA: a não cumulatividade por creditamento.
Em termos simples: se você não consegue gerar crédito na mesma proporção, a alíquota “padrão” pesa mais do que nos demais setores, como é o caso da indústria e venda de mercadorias. A pergunta prática é direta: quanto do tributo vira crédito e quanto vira custo?
Pense em um cenário típico: contrato anual com preço fechado, reajuste travado e concorrência apertando repasse. Se o custo tributário sobe e o crédito não compensa, a margem some – e o cliente vira renegociação.
Além disso, quatro fatores aumentam a incerteza na transição:
Se você quer um norte objetivo, a regra é esta: transforme 2026 em ano de execução. Aqui vai um checklist enxuto:
O racional macro é migrar para um sistema mais neutro, onde o tributo acompanha o consumo e o crédito evita cumulatividade. Entretanto, essa neutralidade só existe se duas condições se confirmarem: (i) alíquota compatível com a economia real do setor e (ii) creditamento efetivo (não só teórico).
No setor de serviços, a discussão real costuma ser sobre o crédito efetivo. Sem medir isso, “alíquota de referência” vira chute e o planejamento vira aposta.
A reforma tributária não é um tema para “acompanhar”. É um tema para projetar e executar. Quem esperar para reagir em 2026 tende a pagar em três moedas: custo, tempo e contencioso.
O setor de serviços precisa transformar a reforma em plano: contrato, preço, sistema e governança. O primeiro passo é simples: revise os principais contratos e teste precificação nos próximos 60 dias. Quem age cedo ganha previsibilidade. Quem espera compra improviso.
FONTE: MIGALHAS – POR RAPHAEL FONSECA DE MARINS DAOU, CAMILA AZEVEDO GALATTI E LUCAS GALANTE