Telefone: (11) 3578-8624

REFORMA TRIBUTÁRIA NÃO PODE SER VISTA APENAS COMO UM AJUSTE CONTÁBIL

3 de fevereiro de 2026

Houve um tempo, não tão distante na memória das cidades brasileiras, em que o horizonte da classe média e dos trabalhadores era delimitado por uma estabilidade previsível. O “pacote da dignidade” era composto por boletos que, embora pesados, compunham um projeto de vida: o plano de saúde, a escola particular, a prestação do carro e o título do clube. Ter a casa própria quitada, como grande conquista, era o ponto final de uma jornada de esforço, eliminando o fantasma do aluguel.

Naquele Brasil, o empresário e o trabalhador com carteira assinada enxergavam uma escada de ascensão onde o mérito individual encontrava respaldo em um ambiente minimamente funcional.
Hoje, esse cenário é uma fotografia desbotada. Diante de salários corroídos, até a antiga segurança da CLT perdeu o brilho para uma aposta muito mais arriscada. O novo desejo nacional é empreender — muitas vezes não por vocação, mas por pura sobrevivência. O brasileiro passou a aceitar uma troca silenciosa e cruel: sacrifica direitos, férias e FGTS na esperança solitária de que, “sendo o próprio patrão”, consiga driblar a estagnação.

O país vive uma realidade onde a cidadania foi sequestrada. Vivemos o paradoxo cruel de pagar impostos de “país nórdico” para receber em troca uma segurança de zona de guerra. Quando o Estado se omite no controle do território, o cidadão é empurrado para o caos. O Estado tornou-se um sócio majoritário do trabalho, mas um sócio ausente na hora de garantir que vivamos em segurança.
Essa disparidade é fruto de um modelo viciado e quantificado. Dados do Tesouro Nacional divulgados nesta semana revelam que a Dívida Pública Federal encerrou 2025 em R$ 8,63 trilhões. Mais alarmante é a projeção de que ultrapassaremos R$ 10 trilhões em 2026.

Enquanto o governo rola sua dívida trilionária, a família brasileira vive a asfixia na ponta da linha: 80% das famílias estão endividadas. Não se trata apenas de estatística econômica, mas de um sintoma de falência social. O cidadão recorre ao crédito predatório e ao dinheiro virtual não para investir, mas para comer e pagar contas básicas, transformando sua existência em um ciclo de juros e privações.

E há muitos brasileiros que dormem e acordam sob o domínio de milícias, pagando taxas paralelas para ter gás ou o direito de ir e vir, sempre vigilantes.

O Sistema Único de Saúde (SUS) permanece como um dos últimos bastiões de um contrato social que ainda respira. Mas ele não pode ser uma ilha isolada. O SUS trata a doença, mas é a economia saudável que previne o adoecimento social. A saúde não se resolve apenas no leito do hospital; ela depende da dignidade de morar em um local seguro e sem o medo constante de bala perdida. O brasileiro não quer apenas “não estar doente”; ele quer a dignidade de ver o fruto do seu trabalho render e de não ser refém de um sistema que cobra muito e entrega pouco.

É justamente para estancar essa sangria que o debate sobre política pública tributária precisa sair da teoria e virar escudo para o cidadão. O sistema atual é uma máquina de desigualdade: taxa-se o consumo, punindo proporcionalmente os mais pobres e esmagando a classe média.

A resposta legislativa precisa ser estrutural. A regulamentação da Reforma Tributária não pode ser vista apenas como um ajuste contábil, mas como uma política de segurança alimentar. Nossa luta é pela alíquota zero para a cesta básica, garantindo que carnes e itens essenciais cheguem à mesa. Justiça tributária é justiça social. Precisamos usar a inteligência fiscal para combater a miséria.
Simultaneamente, a verdadeira justiça fiscal exige inverter a lógica do Imposto de Renda. Não é aceitável que o trabalhador assalariado ou pejotizado seja sobrecarregado, enquanto rendas milionárias tenham isenções históricas.

Precisamos redescobrir que dignidade não é um favor concedido pelo governo, mas o resultado de um ambiente onde a segurança, o controle do território e o respeito a quem produz permitam que o cidadão caminhe sem o peso do Estado nas costas.

Garantir que o esforço do trabalho se converta em paz e prosperidade deve ser a luta de todos, independentemente de ideologia política ou preferência partidária. Afinal, um país justo não é uma bandeira de esquerda ou de direita, mas o único terreno sólido onde podemos construir o futuro.

Os artigos escritos pelos “colunistas” não refletem necessariamente a opinião do Portal da Reforma Tributária. Os textos visam promover o debate sobre temas relevantes para o país.

FONTE: PORTAL DA REFORMA TRIBUTÁRIA – POR MÁRIO HERINGER

 

 

 

Receba nossas newsletters