A reforma tributária não permite crédito da folha de pagamento. Entenda por que pejotização, terceirização e até a IA ganham força. Como sua empresa enfrentará esse caos?
Para qualquer CEO, a folha de pagamento não é apenas uma despesa; é um investimento no capital humano, o motor que move a inovação, a produção e as vendas. Ela representa, muitas vezes, a maior linha de custo de uma empresa. Com a chegada da reforma tributária e seu IVA Dual (IBS e CBS), que prega a não cumulatividade plena, esperava-se um cenário de maior racionalidade para todos os insumos. Contudo, para a folha de pagamento, a realidade que se desenha é outra: ela se consolida como um custo puro, não creditável, elevando a um novo patamar de complexidade a estratégia de recursos humanos.
O que isso significa? Significa que, se sua empresa vende um produto por R$ 100 e paga R$ 27 de IVA (supondo uma alíquota de 27%), esse imposto será abatido dos créditos gerados pela compra de insumos, maquinário, matéria-prima. Mas, se o seu maior “insumo” for o talento humano, a força de trabalho que cria o produto ou serviço, os custos de salário e encargos sociais não geram um único centavo de crédito no novo IVA.
Essa distorção não é um detalhe; é uma bomba no centro da estratégia de talentos, forçando o C-Level a uma pergunta incômoda: vale a pena contratar sob o regime CLT, ou a eficiência fiscal ditará um novo modelo de terceirização, “pejotização” ou transferência para inteligência artificial?
O novo cálculo do capital humano: Um custo sem retorno fiscal
A reforma tributária penaliza implicitamente o emprego formal sob o regime da CLT. Se uma empresa contrata um engenheiro CLT, o custo de seu salário e encargos não abate o IVA pago na venda dos produtos da empresa. Se essa mesma empresa contrata o engenheiro como PJ – Pessoa Jurídica através de um contrato de serviço, a remuneração paga a essa PJ pode, em tese, gerar crédito no IVA para a empresa contratante.
Essa diferença na eficiência fiscal cria uma pressão quase insustentável sobre os departamentos de RH e financeiro:
A “pejotização” e a terceirização: Velhos riscos, novas pressões
A “pejotização” não é novidade. Há anos o mercado flerta com essa fronteira, e a legislação trabalhista brasileira é clara sobre os critérios para descaracterização do contrato de PJ para CLT (subordinação, pessoalidade, habitualidade e onerosidade). As condenações e o passivo trabalhista que recaem sobre empresas que abusam dessa prática são bem conhecidos.
Contudo, a reforma tributária adiciona uma camada de pressão insuportável a esse cenário. O incentivo fiscal é tão grande que muitos líderes podem se ver tentados a ignorar os riscos trabalhistas em nome da “eficiência fiscal” imediata. Da mesma forma, a terceirização, que já é uma estratégia comum, pode se tornar a tática predominante para áreas que não são estritamente o “core business” da empresa. Contratar uma empresa terceira para serviços de TI, RH, contabilidade, logística, marketing, etc., permite que a empresa contratante se credite do IVA pago nesses serviços, algo que não aconteceria se esses profissionais fossem CLT.
As repercussões da alta carga tributária: Uma fuga do formal
Um custo de pessoal mais alto, sem a contrapartida de créditos fiscais, terá repercussões profundas:
A nova ameaça: IA como alternativa de redução de custo
A discussão sobre a substituição de empregos por inteligência artificial e automação não é nova, mas a reforma tributária adiciona uma camada cruel a esse debate. Se o custo da folha de pagamento já é alto e, agora, não gera créditos fiscais significativos para abater o IVA, a equação de valor muda drasticamente a favor da máquina.
Grandes empresas de tecnologia, finanças e serviços já anunciam planos ambiciosos de incorporar soluções de IA para automatizar funções que antes exigiam equipes inteiras – desde atendimento ao cliente (com chatbots e assistentes virtuais) até análise de dados e geração de conteúdo. Exemplos não faltam, com gigantes do setor bancário e de varejo investindo pesado em IA para otimizar operações e reduzir custos.
O paradoxo é que a reforma tributária, ao penalizar o custo do trabalho humano (tornando-o um custo puro, sem crédito de IVA), pode, sem querer, se tornar um catalisador para uma demissão em massa em setores que são facilmente automatizáveis. O robot não pede aumento, não entra em greve e, fiscalmente, pode se tornar mais ‘barato’ que o funcionário, pois seu ‘custo’ (software, hardware, licenças) pode ser creditável no IVA Dual, ao contrário dos salários. Essa é a nova e fria equação que o C-Level terá que resolver.
Diante dessa realidade, a criatividade do mercado, especialmente para o alto escalão e para funções mais especializadas, pode se manifestar em alternativas mais arriscadas:
Conclusão: RH e CFO
A reforma tributária elevou a estratégia de gestão de pessoas à mesa do conselho, com implicações diretas na competitividade e na saúde financeira das empresas. Não é mais possível delegar a “folha” apenas ao RH ou ao financeiro. Ambos precisam sentar juntos, e rapidamente:
A reforma tributária está forçando o Brasil a repensar seu modelo de emprego. As empresas que ignorarem essa nova realidade verão seus custos de pessoal dispararem, enquanto as que agirem com estratégia e inteligência se adaptarão ao novo jogo.
FONTE: MIGALHAS – POR LUCAS PEREIRA SANTOS PARREIRA