A recente notícia dos jornais sobre a tragédia ocorrida no Everest, com a 11ª morte de um alpinista nesta temporada, atodos entristeceu. Mas fica a sensação de que a tragédia demostrou a gravidade de um problema gerado pela falta decontrole e de regras aptas a acolher a mudança de comportamento dos escaladores, que já não são tão eventuais como no passado.
Vale dizer, com a mudança da realidade e constatada a ineficiência do sistema atual, deve-se promover imediatasalterações, sob pena de tragédias se repetirem de forma crescente, levando ao caos, ao desastre, à morte de alguns e àmorte de todos que perseguem o mesmo ideal.
Chocou a revelação da cena do congestionamento de alpinistas querendo alçar o cume do Everest, aguardando pacientemente a sua vez de alcançar o objetivo.
Muitas coisas impressionaram na representação desta foto, mas nenhuma delas impressionou tanto como a paciência, aresiliência e a dependência recíproca de todos que lá estavam, mesmos daqueles que não conseguem perceber bem arealidade sob a influência alucinógena do ambiente rarefeito. Estão todos presos a um mesmo cabo, em fila indiana, por um estreito e único caminho, em condições extremas de adversidade.
Não se pode avançar nem regredir rapidamente sem que os que estão à sua frente ou à sua retaguarda o façam.
Há duas claras conclusões: muitos morrem se a fila andar muito lentamente e todos morrem se a fila não andar. Não hápessoas ou grupos mais ou menos importantes, pois todos eles têm a capacidade de emperrar o progresso dos demais quelá estão, levando-os ao trágico fim comum.
Também não basta caminhar. Há que caminhar com segurança, certo de que a insegurança, assim como o tempo, na dose errada, deixa corpos pelo caminho. E a cada vida perdida, uma derrota irremediável da sociedade.
Na fila da reforma tributária andam todos: juristas, economistas, políticos, empresários, consumidores, entidades públicase privadas, mercado e governo, pessoas e instituições. Enfim, todos juntos, inclusive os que criticam construtivamente, apontando falhas e apresentando importantes ideias de melhoria.
Os que exercem papel de jogar pedras em tudo e em todos, desqualificando não apenas ideias sem apresentar soluçõesalternativas, mas sobretudo desqualificando jocosamente pessoas que trabalham, dedicam tempo e dinheiro para tentarconstruir um melhor caminho, rápido e seguro, não têm lugar nesta fila.
Deveriam permanecer na base da montanha, lembrando que muito ajuda quem não atrapalha. Se querem rolar montanhaabaixo, desconectem-se do cabo de segurança e rolem sós, sem arrastar os que buscam progredir.
Como dizia o meu avô, não são todas as cabras que aprendem a escalar montanhas, como as cabras que transitam a quase90 graus de inclinação nas montanhas do lago Cingino na Itália. As que não aprendem, devem permanecer na base damontanha. Limitam-se à insignificância de desqualificar os desbravadores que, longe de serem curiosos do direito ou cientistas que vivem de experimentos, têm no mínimo muita coragem e boa intenção para mudar um sistema que não maisfunciona.
Fonte: Valor Econômico – Por Eduardo Salusse