{"id":68025,"date":"2026-09-22T11:22:26","date_gmt":"2026-09-22T14:22:26","guid":{"rendered":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/?p=68025"},"modified":"2026-09-22T11:22:26","modified_gmt":"2026-09-22T14:22:26","slug":"itcmd-sobre-bens-no-exterior-a-lc-227-26-encerrou-a-janela-de-planejamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/2026\/09\/22\/itcmd-sobre-bens-no-exterior-a-lc-227-26-encerrou-a-janela-de-planejamento\/","title":{"rendered":"ITCMD SOBRE BENS NO EXTERIOR: A LC 227\/26 ENCERROU A JANELA DE PLANEJAMENTO?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A LC 227\/26 mudou as regras do ITCMD no exterior, mas a cobran\u00e7a ainda depende de leis estaduais e dos prazos de anterioridade.<\/span><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/span><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Duas fam\u00edlias brasileiras decidem, na mesma data, doar aos filhos os mesmos US$ 500 mil mantidos em uma conta nos Estados Unidos. Mesmo valor, mesma moeda, mesmo banco. Uma delas pode n\u00e3o pagar nada de ITCMD. A outra, sim.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O exemplo \u00e9 hipot\u00e9tico, mas a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 perfeitamente poss\u00edvel e mostra o quanto compreender corretamente uma mudan\u00e7a legislativa pode valer mais, em planejamento patrimonial, do que qualquer estrutura sofisticada.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Em janeiro de 2026, o Brasil finalmente publicou a lei complementar que a Constitui\u00e7\u00e3o exigia desde 1988. \u00c0 primeira vista, a conclus\u00e3o parece \u00f3bvia: os Estados agora podem cobrar ITCMD sobre heran\u00e7as e doa\u00e7\u00f5es de bens no exterior.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Ocorre que, para o Direito Tribut\u00e1rio, autorizar e cobrar s\u00e3o etapas distintas. A diferen\u00e7a \u00e9 elementar entre juristas, mas passa facilmente despercebida fora desse c\u00edrculo. Bras\u00edlia fez a sua parte: definiu as regras e abriu a porta. Mas atravess\u00e1-la cabe a cada Estado, que precisa aprovar a pr\u00f3pria lei e observar os prazos constitucionais antes de exigir o tributo. S\u00e3o vinte e sete legislativos, vinte e sete calend\u00e1rios.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Se voc\u00ea tem conta, investimentos, im\u00f3veis ou participa\u00e7\u00e3o societ\u00e1ria fora do Brasil, \u00e9 prov\u00e1vel que a pergunta j\u00e1 o tenha ocorrido: \u00e9 poss\u00edvel doar esse patrim\u00f4nio agora sem pagar ITCMD?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Este artigo explica o que a LC 227\/26 de fato mudou, o que vem pela frente e por que, para muitos brasileiros com patrim\u00f4nio no exterior, o momento ainda pode ser favor\u00e1vel.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>Por que os Estados n\u00e3o podiam cobrar<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Por muito tempo, quem tinha patrim\u00f4nio no exterior e quisesse do\u00e1-lo aos filhos ou terceiros vivia uma situa\u00e7\u00e3o curiosa: alguns Estados cobravam ITCMD sobre essa opera\u00e7\u00e3o, outros n\u00e3o, e a legalidade da cobran\u00e7a era discutida no Judici\u00e1rio pa\u00eds afora, com a jurisprud\u00eancia, de modo geral, inclinando-se a favor dos contribuintes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">N\u00e3o era apenas um problema de interpreta\u00e7\u00e3o. Faltava uma pe\u00e7a, e ela faltava desde 1988.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A Constitui\u00e7\u00e3o atribui aos Estados e ao Distrito Federal a compet\u00eancia para instituir o ITCMD (art. 155, I). Mas h\u00e1 uma trava. Quando a opera\u00e7\u00e3o tem elemento de conex\u00e3o com o exterior, como doador domiciliado fora, falecido residente fora ou invent\u00e1rio processado fora, o art. 155, \u00a7 1\u00ba, III, condiciona a cobran\u00e7a \u00e0 pr\u00e9via edi\u00e7\u00e3o de uma lei complementar federal que defina as regras do jogo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Essa lei n\u00e3o foi editada por mais de tr\u00eas d\u00e9cadas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">V\u00e1rios Estados decidiram legislar assim mesmo. O STF encerrou a discuss\u00e3o em 2021, ao julgar o tema 825 (RE 851.108\/SP): \u00e9 vedado aos Estados e ao Distrito Federal instituir o ITCMD nessas hip\u00f3teses sem a interven\u00e7\u00e3o da lei complementar exigida pela Constitui\u00e7\u00e3o. No Rio de Janeiro, a mesma l\u00f3gica levou \u00e0 declara\u00e7\u00e3o de inconstitucionalidade do art. 5\u00ba, II, da lei estadual 7.174\/15, dispositivo que alcan\u00e7ava bens m\u00f3veis e im\u00f3veis situados no exterior, no julgamento da ADIn 6.826, em mar\u00e7o de 2022, com efeitos modulados a partir de 20 de abril de 2021.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O resultado foi um cen\u00e1rio incomum: uma compet\u00eancia tribut\u00e1ria que existia no papel e n\u00e3o podia ser exercida na pr\u00e1tica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>O que a LC 227\/26 realmente fez<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Editada no contexto da regulamenta\u00e7\u00e3o da reforma tribut\u00e1ria (EC 132\/23), a LC 227\/26 preencheu a lacuna. Pela primeira vez desde 1988, o ITCMD passa a ter normas gerais nacionais (arts. 146 a 164), tratando de fato gerador, base de c\u00e1lculo, progressividade obrigat\u00f3ria, agrega\u00e7\u00e3o de doa\u00e7\u00f5es sucessivas e, pela primeira vez de forma expressa, do tratamento de trusts constitu\u00eddos no exterior.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Para o nosso tema, os dispositivos decisivos s\u00e3o os arts. 158 e 159, que definem qual Estado \u00e9 competente quando h\u00e1 elemento estrangeiro na opera\u00e7\u00e3o:<\/span><\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignleft size-full wp-image-68026\" src=\"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem1.png\" alt=\"\" width=\"567\" height=\"283\" srcset=\"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem1.png 567w, https:\/\/bonettiassociados.com.br\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Imagem1-300x150.png 300w\" sizes=\"(max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Repare no que a tabela revela: a localiza\u00e7\u00e3o f\u00edsica do ativo deixa de ser o centro da an\u00e1lise. O que passa a determinar a compet\u00eancia \u00e9 o v\u00ednculo pessoal, especialmente onde est\u00e3o domiciliados o doador e o donat\u00e1rio. Uma conta em Miami e uma conta em Zurique produzem o mesmo resultado se as pessoas envolvidas continuam domiciliadas no Brasil. Quando nenhuma das duas partes \u00e9 domiciliada no pa\u00eds e o bem tamb\u00e9m est\u00e1 fora, n\u00e3o h\u00e1 Estado brasileiro competente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Isso \u00e9 clareza. E clareza \u00e9 \u00fatil, inclusive para o contribuinte, que passa a saber contra quem discute. O que isso ainda n\u00e3o \u00e9: cobran\u00e7a do tributo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>Autorizar n\u00e3o \u00e9 instituir<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Aqui est\u00e1 o ponto que a maior parte da cobertura sobre a nova lei atropelou.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A lei complementar destravou a fechadura. Quem precisa empurrar a porta \u00e9 cada Estado, um a um, com lei ordin\u00e1ria pr\u00f3pria. A LC 227\/26 \u00e9 norma geral: ela distribui compet\u00eancias e fixa balizas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Ela n\u00e3o institui o imposto em Minas Gerais, em S\u00e3o Paulo ou no Paran\u00e1, e nem poderia, pois a institui\u00e7\u00e3o de tributo estadual depende de lei do pr\u00f3prio Estado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Mais importante: a lei complementar n\u00e3o convalida nem ressuscita os dispositivos estaduais que j\u00e1 haviam sido declarados inconstitucionais. Uma norma retirada do ordenamento pelo Judici\u00e1rio n\u00e3o volta a produzir efeitos porque uma norma superior superveniente passou a autorizar, em tese, a mat\u00e9ria.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">N\u00e3o se trata de tese criativa ou especulativa. O STF j\u00e1 enfrentou essa mat\u00e9ria. No RE 1.553.620\/SP, o Estado de S\u00e3o Paulo sustentou que a EC 132\/23, que criou uma regra transit\u00f3ria de compet\u00eancia em seu art. 16, teria revalidado a lei paulista j\u00e1 declarada inconstitucional quanto a doa\u00e7\u00f5es vindas do exterior. A relatora, ministra C\u00e1rmen L\u00facia, rejeitou o argumento em junho de 2025, e a primeira turma manteve a decis\u00e3o por unanimidade em setembro do mesmo ano. Vale a ressalva t\u00e9cnica: \u00e9 decis\u00e3o de Turma, sem repercuss\u00e3o geral e, portanto, sem efeito vinculante. Mas o racioc\u00ednio \u00e9 transpon\u00edvel: emenda constitucional n\u00e3o repristina lei estadual inv\u00e1lida, e lei complementar tampouco.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Enquanto o Estado n\u00e3o fizer o dever de casa legislativo, falta o alicerce da cobran\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>O calend\u00e1rio tamb\u00e9m protege o contribuinte<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Suponha agora o cen\u00e1rio menos favor\u00e1vel: um Estado publica, ainda em 2026, uma lei nova e tecnicamente adequada, alcan\u00e7ando doa\u00e7\u00f5es de bens no exterior.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Mesmo assim, ela n\u00e3o cobra nada imediatamente. A Constitui\u00e7\u00e3o imp\u00f5e duas barreiras temporais sempre que um tributo \u00e9 criado ou majorado (art. 150, III, \u201cb\u201d e \u201cc\u201d):<\/span><\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Anterioridade anual: a regra s\u00f3 produz efeitos no exerc\u00edcio financeiro seguinte ao da publica\u00e7\u00e3o;<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Noventena: \u00e9 preciso respeitar, ainda, um intervalo m\u00ednimo de noventa dias entre a publica\u00e7\u00e3o e a cobran\u00e7a.<\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Prevalece sempre o prazo mais longo. Uma lei estadual publicada em 2026 s\u00f3 poder\u00e1, na melhor das hip\u00f3teses para o Fisco, produzir efeitos a partir de 1\u00ba de janeiro de 2027. Se publicada perto do fim do ano, ainda mais tarde.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">H\u00e1 quem sustente, invocando o precedente do Difal de ICMS, que a discuss\u00e3o sobre anterioridade comporta nuances. O argumento merece acompanhamento, mas n\u00e3o desloca o eixo do problema: onde o dispositivo estadual foi expressamente declarado inconstitucional, n\u00e3o h\u00e1 o que produzir efeito. Falta a lei antes de faltar o prazo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Em setembro de 2026, boa parte dos Estados ainda discutia seus projetos de adequa\u00e7\u00e3o em assembleia. A janela, portanto, \u00e9 real. Mas ela n\u00e3o \u00e9 nacional, n\u00e3o \u00e9 uniforme e n\u00e3o \u00e9 permanente: cada Estado tem seu pr\u00f3prio calend\u00e1rio, e \u00e9 por isso que a pergunta \u201cposso doar sem ITCMD?\u201d n\u00e3o tem resposta padr\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>Onde os planejamentos costumam quebrar<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A tese ser s\u00f3lida n\u00e3o significa que o Fisco deixar\u00e1 de autuar. Os Estados conhecem a estat\u00edstica: a maioria dos contribuintes prefere pagar a discutir. Por isso, planejamento sem atua\u00e7\u00e3o preventiva costuma virar conting\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O erro mais comum \u00e9 tamb\u00e9m o mais silencioso. O contribuinte formaliza a doa\u00e7\u00e3o, acessa o sistema eletr\u00f4nico da Fazenda estadual, preenche a declara\u00e7\u00e3o do ITCMD e a transmite. Como o ITCMD \u00e9, em regra, sujeito a lan\u00e7amento por homologa\u00e7\u00e3o, a declara\u00e7\u00e3o pode importar o reconhecimento do d\u00e9bito e, conforme a legisla\u00e7\u00e3o estadual, constituir o cr\u00e9dito tribut\u00e1rio. Se o valor n\u00e3o for pago, o d\u00e9bito pode seguir para inscri\u00e7\u00e3o em d\u00edvida ativa e execu\u00e7\u00e3o fiscal. Nesse momento, a controv\u00e9rsia que poderia ter sido enfrentada preventivamente passa a exigir uma defesa repressiva e, em caso de embargos \u00e0 execu\u00e7\u00e3o, a garantia do ju\u00edzo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A estrat\u00e9gia preventiva vai na dire\u00e7\u00e3o oposta: simular o preenchimento da declara\u00e7\u00e3o e o c\u00e1lculo do imposto no sistema estadual, preservando as telas e os registros que comprovam a amea\u00e7a concreta de cobran\u00e7a, sem transmitir a declara\u00e7\u00e3o. Com essas provas, somadas ao instrumento de doa\u00e7\u00e3o e \u00e0 cota\u00e7\u00e3o oficial do Banco Central na data do neg\u00f3cio, pode-se ingressar com mandado de seguran\u00e7a preventivo antes da constitui\u00e7\u00e3o do cr\u00e9dito. Quando conveniente, o dep\u00f3sito judicial integral e em dinheiro suspende a exigibilidade do cr\u00e9dito tribut\u00e1rio e pode evitar os efeitos da mora enquanto a discuss\u00e3o avan\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>Um caso concreto<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Em agosto de 2026, a 2\u00aa vara da Comarca de Barra do Pira\u00ed (RJ) deferiu liminar em mandado de seguran\u00e7a envolvendo uma doa\u00e7\u00e3o de US$ 600.000,00 mantidos em conta banc\u00e1ria nos Estados Unidos, formalizada em 2025, depois da EC 132\/23 e antes da LC 227\/26.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O magistrado reconheceu o elemento de conex\u00e3o com o exterior e aplicou o entendimento firmado na ADIn 6.826. Ainda que doador e donat\u00e1ria fossem domiciliados no Brasil, a decis\u00e3o determinou que a autoridade estadual se abstivesse de exigir o imposto e vedou qualquer ato de cobran\u00e7a, inscri\u00e7\u00e3o em d\u00edvida ativa ou restri\u00e7\u00e3o fiscal, sob pena de multa di\u00e1ria.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Duas ressalvas honestas. A decis\u00e3o \u00e9 liminar, proferida em cogni\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria. E a opera\u00e7\u00e3o \u00e9 anterior \u00e0 lei complementar, o que impede l\u00ea-la como precedente sobre o tratamento das doa\u00e7\u00f5es realizadas depois de janeiro de 2026.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O que o caso mostra, e mostra bem, \u00e9 que a controv\u00e9rsia continua viva, continua sendo levada ao Judici\u00e1rio e continua produzindo decis\u00f5es favor\u00e1veis quando a opera\u00e7\u00e3o civil \u00e9 impec\u00e1vel, do instrumento de doa\u00e7\u00e3o ao lastro financeiro rastre\u00e1vel. Documenta\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil transforma uma boa tese jur\u00eddica em uma discuss\u00e3o sobre a validade do pr\u00f3prio neg\u00f3cio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>O que precisa ser verificado antes de doar<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O mercado oferece solu\u00e7\u00f5es empacotadas para o planejamento patrimonial internacional, mas o tema n\u00e3o comporta f\u00f3rmulas prontas. Cada opera\u00e7\u00e3o combina vari\u00e1veis pr\u00f3prias: o domic\u00edlio das partes, a natureza e a localiza\u00e7\u00e3o do bem, a forma jur\u00eddica da transfer\u00eancia, a legisla\u00e7\u00e3o estadual aplic\u00e1vel e o momento de sua vig\u00eancia. Tratar casos distintos como se fossem iguais \u00e9 a forma mais r\u00e1pida de transformar a economia esperada em passivo. O planejamento, aqui, \u00e9 necessariamente tailor-made. Ele exige an\u00e1lise caso a caso, com exame de todas as hip\u00f3teses de incid\u00eancia e das rela\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas envolvidas, sob pena de se entregar ao cliente, como solu\u00e7\u00e3o, aquilo que na pr\u00e1tica \u00e9 um risco. Antes de transferir dinheiro em conta estrangeira, ceder quotas de uma offshore ou movimentar uma carteira global, \u00e9 preciso responder:<\/span><\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Qual Estado seria competente, considerando o domic\u00edlio do doador, o do donat\u00e1rio e a natureza do bem;<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Se esse Estado j\u00e1 editou lei nova, aderente \u00e0 LC 227\/26, alcan\u00e7ando a hip\u00f3tese espec\u00edfica;<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Existindo lei nova, a partir de quando ela produz efeitos, \u00e0 luz da anterioridade e da noventena;<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Se a regra estadual anterior sobre o tema foi declarada inconstitucional pelo STF ou pelo tribunal local;<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Em que momento, tecnicamente, se considera ocorrido o fato gerador, o que varia conforme a forma jur\u00eddica da opera\u00e7\u00e3o e muda bastante quando h\u00e1 trust envolvido;<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Se a documenta\u00e7\u00e3o comprova com solidez a exist\u00eancia e a data da transfer\u00eancia;<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Se o sistema eletr\u00f4nico do Fisco estadual gera cobran\u00e7a autom\u00e1tica ao receber os dados da opera\u00e7\u00e3o, e que medida preventiva cabe diante desse risco.<\/span><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Conv\u00e9m antecipar, ainda, os argumentos que algumas procuradorias estaduais tendem a construir. O primeiro sustenta que a LC 227\/26 poderia ser combinada com dispositivos gen\u00e9ricos j\u00e1 existentes na legisla\u00e7\u00e3o estadual, dispensando lei nova. A jurisprud\u00eancia do STF caminha em sentido contr\u00e1rio. O segundo invoca o art. 16 da EC 132\/23. Como esse dispositivo disciplinou, em car\u00e1ter provis\u00f3rio, a compet\u00eancia para o ITCMD nas hip\u00f3teses do art. 155, \u00a7 1\u00ba, III, da CF\/88, o tema 825 (RE 851.108) ficaria restrito aos fatos geradores anteriores \u00e0 emenda. A cobran\u00e7a sobre bens no exterior seria, assim, leg\u00edtima desde 20\/12\/23, independentemente de lei complementar ou de lei estadual nova.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O argumento confunde planos distintos. O art. 16 apenas define qual Estado \u00e9 competente (\u201ccompetir\u00e1\u201d), resolvendo o conflito entre os entes. Ele n\u00e3o institui o tributo nem define fato gerador, base de c\u00e1lculo, al\u00edquota ou contribuinte, mat\u00e9rias sujeitas \u00e0 reserva de lei (CF\/88, art. 150, I; CTN, art. 97). O dispositivo pressup\u00f5e, portanto, imposto validamente institu\u00eddo por lei estadual, e n\u00e3o o substitui. Tampouco a norma constitucional superveniente convalida lei estadual que nasceu em desconformidade com a Constitui\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Autoriza\u00e7\u00e3o para legislar \u00e9 uma coisa; institui\u00e7\u00e3o v\u00e1lida do tributo por lei estadual pr\u00f3pria \u00e9 outra. \u00c9 a segunda etapa que ainda falta na maior parte do pa\u00eds.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>Afinal, o que realmente podemos concluir?<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A LC 227\/26 n\u00e3o trouxe uma resposta \u00fanica e nacional sobre a tributa\u00e7\u00e3o de doa\u00e7\u00f5es de bens mantidos fora do Brasil. Trouxe o fim de uma lacuna e o in\u00edcio de um processo de adequa\u00e7\u00e3o legislativa que corre em vinte e sete velocidades diferentes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Existe, sim, uma janela. Ela \u00e9 jur\u00eddica, datada e estadual. N\u00e3o se fecha em uma \u00fanica data nacional, mas Estado por Estado, conforme a edi\u00e7\u00e3o de cada lei e o encontro dos dois marcos temporais: a anterioridade anual e a noventena. Por isso, o momento exato da doa\u00e7\u00e3o pode separar um planejamento leg\u00edtimo e eficiente de uma conting\u00eancia tribut\u00e1ria cara.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Por essa raz\u00e3o, estruturas patrimoniais internacionais n\u00e3o devem ser mantidas nem alteradas com base em premissas gen\u00e9ricas de mercado. A combina\u00e7\u00e3o entre a natureza do patrim\u00f4nio, o Estado competente e a forma da opera\u00e7\u00e3o produz consequ\u00eancias jur\u00eddicas \u00fanicas, e a sua correta identifica\u00e7\u00e3o \u00e9 condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para qualquer tomada de decis\u00e3o<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Para quem tem ativos no exterior e considera antecipar uma doa\u00e7\u00e3o, uma reorganiza\u00e7\u00e3o societ\u00e1ria ou uma mudan\u00e7a de benefici\u00e1rios, o passo anterior n\u00e3o \u00e9 executar. \u00c9 diagnosticar: qual Estado, qual regra vigente hoje, qual prazo e qual medida preventiva. Essa leitura \u00e9 individual e exige an\u00e1lise jur\u00eddica atualizada.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">_____<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Conte\u00fado com informa\u00e7\u00f5es verificadas em agosto de 2026. Como os Estados est\u00e3o editando suas leis de adequa\u00e7\u00e3o \u00e0 LC 227\/26 em ritmos distintos, a situa\u00e7\u00e3o descrita aqui pode mudar conforme a jurisdi\u00e7\u00e3o e a data. Este artigo tem finalidade informativa e n\u00e3o substitui an\u00e1lise individualizada.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">_____<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Constitui\u00e7\u00e3o Federal, art. 155, I e \u00a7 1\u00ba, III, e art. 150, III, \u201cb\u201d e \u201cc\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">LC 227, de 13 de janeiro de 2026 (arts. 146 a 164, especialmente 158 e 159).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">STF, RE 851.108\/SP (Tema 825).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">STF, ADIn 6.826\/RJ.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">STF, RE n\u00ba 1.553.620\/SP (1\u00aa turma).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>FONTE: MIGALHAS &#8211; POR EDUARDO F. DE SOUZA WEYLL E ST\u00c9PHANO SANT&#8217;ANA<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A LC 227\/26 mudou as regras do ITCMD no exterior, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"footnotes":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false}}},"categories":[2],"tags":[],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/paFpWR-hHb","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68025"}],"collection":[{"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=68025"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68025\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":68029,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/68025\/revisions\/68029"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=68025"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=68025"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=68025"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}