{"id":65491,"date":"2026-07-21T10:09:24","date_gmt":"2026-07-21T13:09:24","guid":{"rendered":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/?p=65491"},"modified":"2026-07-21T10:09:24","modified_gmt":"2026-07-21T13:09:24","slug":"quem-paga-a-conta-do-desequilibrio-tributario-nos-contratos-publicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/2026\/07\/21\/quem-paga-a-conta-do-desequilibrio-tributario-nos-contratos-publicos\/","title":{"rendered":"QUEM PAGA A CONTA DO DESEQUIL\u00cdBRIO TRIBUT\u00c1RIO NOS CONTRATOS P\u00daBLICOS?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Saneamento, rodovias e obras p\u00fablicas: A reforma tribut\u00e1ria muda a forma de provar o desequil\u00edbrio contratual e deve massificar pedidos de reequil\u00edbrio.<\/span><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/span><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A transi\u00e7\u00e3o para o IBS e a CBS deve gerar uma onda de pedidos de reequil\u00edbrio econ\u00f4mico-financeiro em uma parcela de contratos administrativos, pois a lei complementar 214\/251 n\u00e3o criou um fundamento jur\u00eddico novo para a revis\u00e3o contratual, que j\u00e1 encontrava amparo nos arts 124 e 136 da lei 14.133\/212, aplic\u00e1veis a qualquer altera\u00e7\u00e3o com repercuss\u00e3o comprovada sobre os pre\u00e7os contratados.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O que a LC 214\/25 fez, nos arts. 373 a 377, foi disciplinar um procedimento espec\u00edfico para os efeitos extraordin\u00e1rios da implanta\u00e7\u00e3o do IBS e da CBS nos contratos p\u00fablicos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O procedimento, contudo, \u00e9 a parte f\u00e1cil, j\u00e1 que a dificuldade real est\u00e1 na prova do desequil\u00edbrio e \u00e9 justamente a\u00ed que se torna mais sens\u00edvel, na medida em que n\u00e3o basta substituir, na planilha de custos, PIS, Cofins, ISS e ICMS pelo CBS\/IBS, pois o pre\u00e7o contratado originalmente j\u00e1 embutia esses tributos antigos numa determinada propor\u00e7\u00e3o, de modo que provar o desequil\u00edbrio exige reconstruir essa composi\u00e7\u00e3o original, quanto de cada tributo extinto estava, de fato, dentro do pre\u00e7o, para ent\u00e3o comparar com o que os novos tributos efetivamente representam, depois de descontados os cr\u00e9ditos que passam a ser apropri\u00e1veis no regime de n\u00e3o cumulatividade ampla.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O caso do saneamento b\u00e1sico ilustra bem o mecanismo por tr\u00e1s do salto, j\u00e1 que, segundo estudo da FGV justi\u00e7a3, a carga tribut\u00e1ria das empresas de \u00e1gua e esgoto pode subir de 9,25% para at\u00e9 26,5%. Esse aumento n\u00e3o decorre simplesmente da chegada de dois tributos novos, mas da combina\u00e7\u00e3o entre a mudan\u00e7a da base de c\u00e1lculo, que deixa de ser a receita bruta e passa a ser o valor adicionado, e a extin\u00e7\u00e3o de isen\u00e7\u00f5es de ISS e ICMS historicamente aplicadas ao setor, sem que a reforma tenha previsto qualquer mecanismo de compensa\u00e7\u00e3o para essa perda e \u00e9 essa soma, base nova mais benef\u00edcio extinto, que praticamente garante uma onda de reequil\u00edbrios nas concess\u00f5es do setor.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Em rodovias, o mecanismo \u00e9 mais direto porque a al\u00edquota combinada de IBS e CBS projetada, entre 26% e 28%4, substitui uma carga anterior de 8,65%, ainda que os cr\u00e9ditos do regime n\u00e3o cumulativo possam mitigar parte do impacto, a depender da estrutura de custos de cada concess\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">H\u00e1 tamb\u00e9m uma imprecis\u00e3o redacional que merece aten\u00e7\u00e3o porque o art. 374 estende o reequil\u00edbrio aos contratos da administra\u00e7\u00e3o &#8220;direta ou indireta&#8221;, o que alcan\u00e7aria as estatais, mas o art. 373, \u00a7 2\u00ba, exclui os &#8220;contratos privados&#8221;, categoria em que se encaixam justamente os contratos das estatais regidos pelo direito privado. Ora, a leitura sistem\u00e1tica aponta para a aplica\u00e7\u00e3o do cap\u00edtulo \u00e0s estatais, mas trata-se de conclus\u00e3o constru\u00edda por interpreta\u00e7\u00e3o, n\u00e3o de resposta expressa da lei, o que recomenda aos Tribunais de Contas pacificar o ponto antes que a controv\u00e9rsia apare\u00e7a de forma dispersa em casos concretos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A LC 214\/25 relativiza uma l\u00f3gica at\u00e9 ent\u00e3o praticamente intoc\u00e1vel nos contratos administrativos, pois o art. 6\u00ba, inciso XXVII, da lei 14.133\/21 define a matriz de risco justamente para que as partes saibam, desde a assinatura do contrato, quem paga a conta se um imprevisto acontecer, evitando disputas posteriores.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O art. 103, \u00a7 5\u00ba, inciso II, da lei 14.133\/21 j\u00e1 estabelece que, mesmo havendo matriz de risco atribuindo \u00e0 contratada os riscos tribut\u00e1rios, isso n\u00e3o afasta o direito ao reequil\u00edbrio quando o motivo \u00e9 &#8220;aumento ou redu\u00e7\u00e3o, por legisla\u00e7\u00e3o superveniente, dos tributos diretamente pagos pelo contratado em decorr\u00eancia do contrato&#8221;, ou seja, a regra geral j\u00e1 dizia que aumento de tributo por lei nova \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o expressa \u00e0 ren\u00fancia ao reequil\u00edbrio, independentemente do que a matriz de risco previa.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O ponto sens\u00edvel est\u00e1 num detalhe mais fino porque depois da EC 132\/23, a reforma tribut\u00e1ria deixou de ser um evento hipot\u00e9tico e passou a ser um cronograma p\u00fablico e conhecido, e isso abriu espa\u00e7o para o argumento de que contratos negociados a partir dali poderiam alocar especificamente \u00e0 contratada o risco dessa reforma, j\u00e1 que um evento anunciado n\u00e3o seria mais, em tese, &#8220;legisla\u00e7\u00e3o superveniente&#8221; imprevis\u00edvel para os fins do art. 103. \u00c9 essa tese que o art. 374, \u00a72\u00ba, da LC 214\/25 fecha, ao garantir o reequil\u00edbrio mesmo quando a matriz de risco j\u00e1 previa expressamente que os impactos da pr\u00f3pria reforma seriam suportados pela contratada.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Outrossim, \u00e9 poss\u00edvel asseverar que em contratos de obras p\u00fablicas a reforma altera algo ainda mais estrutural do que a al\u00edquota, pois muda a pr\u00f3pria unidade de medida do desequil\u00edbrio, j\u00e1 que antes a apura\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria de uma construtora era feita de forma unificada, pela contabilidade geral da empresa, de modo que, se a carga subisse, a demonstra\u00e7\u00e3o podia se apoiar nos n\u00fameros consolidados do contratado, uma fotografia \u00fanica da empresa como um todo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Nesse sentido, o art. 270 da LC 214\/25 rompe com essa l\u00f3gica ao determinar que a apura\u00e7\u00e3o do IBS e da CBS seja feita separadamente para cada obra, tratada como centro de custo pr\u00f3prio, com cadastro individual, de modo que, depois da reforma, n\u00e3o existe mais &#8220;a carga tribut\u00e1ria da construtora&#8221;, mas a carga tribut\u00e1ria de cada obra, isoladamente, com seus pr\u00f3prios cr\u00e9ditos e insumos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Na pr\u00e1tica, isso significa que comprovar o desequil\u00edbrio deixa de ser quest\u00e3o cont\u00e1bil gen\u00e9rica e passa a ser quest\u00e3o de rastreabilidade obra por obra, isto \u00e9, de quais cr\u00e9ditos de IBS e CBS entraram naquele centro de custo espec\u00edfico, j\u00e1 que uma coisa \u00e9 a construtora alegar, de forma ampla, que sua carga tribut\u00e1ria aumentou, e outra, bem mais dif\u00edcil de contestar ou de aceitar sem exame, \u00e9 demonstrar isso obra por obra, com a segrega\u00e7\u00e3o que a pr\u00f3pria lei agora exige.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O que essa an\u00e1lise revela, em s\u00edntese, \u00e9 que a reforma tribut\u00e1ria transformou o reequil\u00edbrio contratual de hip\u00f3tese excepcional em processo massificado, ao mesmo tempo em que relativizou a pr\u00f3pria promessa que sustenta a matriz de risco, a de que o que foi pactuado permanece valendo, como se a seguran\u00e7a jur\u00eddica de um contrato administrativo fosse sempre condicional, at\u00e9 que uma nova lei decida que n\u00e3o \u00e9 mais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Concebida para um procedimento c\u00e9lere e consensual, a norma deixou aos \u00f3rg\u00e3os contratantes a tarefa de construir, na pr\u00e1tica, o crit\u00e9rio t\u00e9cnico que a lei n\u00e3o definiu, e \u00e9 fiscalizando essas decis\u00f5es, contrato a contrato, que os \u00f3rg\u00e3os reguladores e os Tribunais de Contas v\u00e3o pouco a pouco verificar algo mais antigo do que qualquer reforma tribut\u00e1ria: At\u00e9 onde vai a palavra empenhada pelo Estado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>___________<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">1 BRASIL. Lei Complementar 214, de 16 de janeiro de 2025. Regulamenta o Imposto sobre Bens e Servi\u00e7os (IBS), a Contribui\u00e7\u00e3o sobre Bens e Servi\u00e7os (CBS) e o Imposto Seletivo (IS). Di\u00e1rio Oficial da Uni\u00e3o, Bras\u00edlia, DF, 17 jan. 2025.<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 10pt;\">2 BRASIL. Lei 14.133, de 01 de abril de 2021. Lei de Licita\u00e7\u00f5es e Contratos Administrativos. Di\u00e1rio Oficial da Uni\u00e3o, Bras\u00edlia, DF, 10 jun. 2021.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 10pt;\">3 ABRAHAM, Marcus; LANNES, Camila Thiebaut Bayer. Impactos da reforma tribut\u00e1ria do consumo sobre o saneamento b\u00e1sico. Rio de Janeiro: FGV Justi\u00e7a, 2024. Dispon\u00edvel em: https:\/\/justica.fgv.br\/sites\/default\/files\/2024-12\/estudo_impactos_reforma_tributaria_consumo_saneamento.pdf. Acesso em: 12 jul. 2026.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 10pt;\">4 Impacto da reforma tribut\u00e1ria nas concess\u00f5es de rodovias<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>FONTE: MIGALHAS &#8211; POR GIHAD MENEZES<\/strong><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Saneamento, rodovias e obras p\u00fablicas: A reforma tribut\u00e1ria muda a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"footnotes":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false}}},"categories":[9],"tags":[],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/paFpWR-h2j","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65491"}],"collection":[{"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=65491"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65491\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":65492,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65491\/revisions\/65492"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=65491"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=65491"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=65491"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}