{"id":61615,"date":"2026-04-06T09:43:49","date_gmt":"2026-04-06T12:43:49","guid":{"rendered":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/?p=61615"},"modified":"2026-04-06T09:43:49","modified_gmt":"2026-04-06T12:43:49","slug":"quando-a-coerencia-vira-controle-o-risco-de-engessamento-do-contencioso-do-ibs","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/2026\/04\/06\/quando-a-coerencia-vira-controle-o-risco-de-engessamento-do-contencioso-do-ibs\/","title":{"rendered":"QUANDO A COER\u00caNCIA VIRA CONTROLE: O RISCO DE ENGESSAMENTO DO CONTENCIOSO DO IBS"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Problema real n\u00e3o \u00e9 uniformiza\u00e7\u00e3o (leg\u00edtima e necess\u00e1ria), mas quem a controla e sob qual arquitetura de poder ela opera.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A Lei Complementar 227, de 13 de janeiro de 2026, n\u00e3o se limitou a organizar o contencioso administrativo do IBS. Ao disciplinar a uniformiza\u00e7\u00e3o interpretativa e consolidar o papel do Comit\u00ea Gestor do IBS (CGIBS) como fonte de orienta\u00e7\u00f5es vinculantes para o julgamento, instituiu algo qualitativamente distinto: um centro de comando hermen\u00eautico embutido na pr\u00f3pria estrutura decis\u00f3ria.<\/span><a name=\"_ftnref1\"><\/a><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/colunas\/pauta-fiscal\/quando-a-coerencia-vira-controle-o-risco-de-engessamento-do-contencioso-do-ibs?utm_medium=email&amp;utm_campaign=press_clipping_fenacon_-__6_de_abril_de_2026&amp;utm_source=RD+Station#_ftn1\">[1]<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O discurso institucional promete coer\u00eancia e previsibilidade. O problema real, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 a uniformiza\u00e7\u00e3o (leg\u00edtima e necess\u00e1ria), mas quem a controla e sob qual arquitetura de poder ela opera.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O n\u00facleo cr\u00edtico da LC\u00a0227 est\u00e1 na vincula\u00e7\u00e3o do julgador \u00e0s orienta\u00e7\u00f5es, instru\u00e7\u00f5es e precedentes emanados do CGIBS. Trata-se de subordina\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 apenas t\u00e9cnica, mas tamb\u00e9m hier\u00e1rquica.<\/span><a name=\"_ftnref2\"><\/a><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/colunas\/pauta-fiscal\/quando-a-coerencia-vira-controle-o-risco-de-engessamento-do-contencioso-do-ibs?utm_medium=email&amp;utm_campaign=press_clipping_fenacon_-__6_de_abril_de_2026&amp;utm_source=RD+Station#_ftn2\">[2]<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Quando o julgador deixa de ser int\u00e9rprete e passa a ser executor de diretrizes produzidas por um \u00f3rg\u00e3o n\u00e3o jurisdicional, o contencioso administrativo perde sua fun\u00e7\u00e3o constitutiva: mediar conflitos entre fisco e contribuinte com base em interpreta\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e plural da lei. Se essa pluralidade \u00e9 suprimida por comando institucional, o que se obt\u00e9m \u00e9 uniformidade, mas nem sempre coer\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Aqui reside o problema mais s\u00e9rio do novo modelo, e ele n\u00e3o pode ser dilu\u00eddo por apelos \u00e0 efici\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A LC 227 rompe com um padr\u00e3o hist\u00f3rico do contencioso administrativo tribut\u00e1rio brasileiro. Nenhum tribunal administrativo fiscal do pa\u00eds esteve subordinado ao \u00f3rg\u00e3o respons\u00e1vel pela arrecada\u00e7\u00e3o do tributo que julga. No modelo do Carf, por exemplo, os conselheiros preservam independ\u00eancia decis\u00f3ria em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Receita Federal, de modo que o fisco federal n\u00e3o dita o sentido das decis\u00f5es do colegiado que julga seus pr\u00f3prios lan\u00e7amentos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">\u00c9 essa separa\u00e7\u00e3o que confere credibilidade institucional ao processo. No entanto, a LC\u00a0227 inverte esse arranjo: o CGIBS \u00e9 simultaneamente o \u00f3rg\u00e3o gestor e arrecadador do IBS e a inst\u00e2ncia produtora das orienta\u00e7\u00f5es que vinculam os julgadores. A fus\u00e3o entre gestor e hermeneuta n\u00e3o \u00e9 detalhe organizacional, mas um problema estrutural que pode acabar por comprometer a imparcialidade do sistema desde a sua origem.<\/span><a name=\"_ftnref3\"><\/a><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/colunas\/pauta-fiscal\/quando-a-coerencia-vira-controle-o-risco-de-engessamento-do-contencioso-do-ibs?utm_medium=email&amp;utm_campaign=press_clipping_fenacon_-__6_de_abril_de_2026&amp;utm_source=RD+Station#_ftn3\">[3]<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A obje\u00e7\u00e3o previs\u00edvel \u2014 de que precedentes vinculantes s\u00e3o figuras conhecidas no direito brasileiro \u2014 n\u00e3o responde \u00e0 cr\u00edtica.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O que se questiona n\u00e3o \u00e9 a vinculatividade em si, mas a aus\u00eancia de qualquer mecanismo que separe a produ\u00e7\u00e3o da norma interpretativa da fun\u00e7\u00e3o gestora e arrecadat\u00f3ria. E isso, somado \u00e0 aus\u00eancia de previs\u00e3o robusta de participa\u00e7\u00e3o dos contribuintes na forma\u00e7\u00e3o dos precedentes, acarreta uma inevit\u00e1vel assimetria constitutiva: o contribuinte n\u00e3o influencia as teses que o vinculam e n\u00e3o tem garantia de que elas foram constru\u00eddas com independ\u00eancia do interesse arrecadat\u00f3rio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O efeito paradoxal j\u00e1 se anuncia: a uniformiza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada pode produzir mais judicializa\u00e7\u00e3o. O contribuinte que se v\u00ea impedido de dialogar com o Estado recorrer\u00e1 ao Judici\u00e1rio para discutir o m\u00e9rito do tributo ou at\u00e9 mesmo para contestar a legitimidade do pr\u00f3prio julgamento. A reforma tribut\u00e1ria, que prometia reduzir a litigiosidade, corre o risco de transferi-la para outro n\u00edvel, com contornos de inconstitucionalidade processual.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O desafio do contencioso do IBS \u00e9, portanto, institucional antes de ser operacional. O CGIBS pode e deve atuar como coordenador t\u00e9cnico e produtor de orienta\u00e7\u00f5es fundamentadas, abertas ao contradit\u00f3rio e dissociadas da l\u00f3gica arrecadat\u00f3ria. O que n\u00e3o pode \u00e9 funcionar como centro de comando ao qual o julgador obedece sem possibilidade de dissenso fundamentado.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A coer\u00eancia interpretativa \u00e9 poss\u00edvel e desej\u00e1vel; a subordina\u00e7\u00e3o hermen\u00eautica n\u00e3o o \u00e9. A reforma tribut\u00e1ria n\u00e3o precisa ser recordada apenas pela quantidade de processos resolvidos, mas pela capacidade de reconstruir o v\u00ednculo de confian\u00e7a entre Fisco e contribuinte. Esse v\u00ednculo exige, no m\u00ednimo, que o julgamento administrativo preserve sua fun\u00e7\u00e3o deliberativa e n\u00e3o se converta em inst\u00e2ncia de valida\u00e7\u00e3o das escolhas do gestor fiscal.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">*<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><em>Este texto \u00e9 fruto das discuss\u00f5es ocorridas no N\u00facleo do Mestrado Profissional da FGV Direito SP, na linha de pesquisa \u201cQuest\u00f5es Contempor\u00e2neas do Contencioso Tribut\u00e1rio\u201d, em rela\u00e7\u00e3o ao projeto \u201cReforma do Processo e seus Impactos na Reforma Tribut\u00e1ria<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a name=\"_ftn1\"><\/a><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/colunas\/pauta-fiscal\/quando-a-coerencia-vira-controle-o-risco-de-engessamento-do-contencioso-do-ibs?utm_medium=email&amp;utm_campaign=press_clipping_fenacon_-__6_de_abril_de_2026&amp;utm_source=RD+Station#_ftnref1\">[1]<\/a>\u00a0O art. 74 enumera os provimentos vinculantes que os \u00f3rg\u00e3os do contencioso devem observar, incluindo as s\u00famulas do CGIBS (inciso V). O art. 88 determina que os Estados, o Distrito Federal e os Munic\u00edpios exercem as compet\u00eancias de julgamento \u201cexclusivamente por meio do CGIBS\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a name=\"_ftn2\"><\/a><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/colunas\/pauta-fiscal\/quando-a-coerencia-vira-controle-o-risco-de-engessamento-do-contencioso-do-ibs?utm_medium=email&amp;utm_campaign=press_clipping_fenacon_-__6_de_abril_de_2026&amp;utm_source=RD+Station#_ftnref2\">[2]<\/a>\u00a0Segundo o art. 74, par\u00e1grafo \u00fanico, da LC 227\/2026, os \u00f3rg\u00e3os julgadores ficam impedidos de afastar a aplica\u00e7\u00e3o de lei ou ato normativo sob fundamento de inconstitucionalidade ou de ilegalidade. De igual moso, o art. 323-G, \u00a7 5\u00ba, IV, da LC 214\/2025, imp\u00f5e que as decis\u00f5es da C\u00e2mara Nacional de Integra\u00e7\u00e3o do Contencioso Administrativo do IBS e da CBS \u201cvincular\u00e3o os \u00f3rg\u00e3os julgadores da Uni\u00e3o e do CGIBS\u201d a partir da publica\u00e7\u00e3o no Di\u00e1rio Oficial da Uni\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a name=\"_ftn3\"><\/a><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><a href=\"https:\/\/www.jota.info\/opiniao-e-analise\/colunas\/pauta-fiscal\/quando-a-coerencia-vira-controle-o-risco-de-engessamento-do-contencioso-do-ibs?utm_medium=email&amp;utm_campaign=press_clipping_fenacon_-__6_de_abril_de_2026&amp;utm_source=RD+Station#_ftnref3\">[3]<\/a>\u00a0A separa\u00e7\u00e3o estrutural entre \u00f3rg\u00e3o arrecadador e \u00f3rg\u00e3o julgador \u00e9, no modelo do CARF, assegurada institucionalmente: os conselheiros representantes da Fazenda Nacional s\u00e3o indicados pelo Ministro da Fazenda, e n\u00e3o pela Receita Federal do Brasil, preservando dist\u00e2ncia organizacional entre o lan\u00e7ador e o julgador. A LC 227\/2026 colapsa essa separa\u00e7\u00e3o ao confiar ao CGIBS, simultaneamente, as fun\u00e7\u00f5es de gest\u00e3o, arrecada\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de orienta\u00e7\u00f5es vinculantes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Os artigos publicados pelo JOTA n\u00e3o refletem necessariamente a opini\u00e3o do site. Os textos buscam estimular o debate sobre temas importantes para o pa\u00eds, sempre prestigiando a pluralidade de ideias.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>FONTE: JOTA \u2013 POR DANIEL DOS SANTOS COSTA E PAULO RICARDO ALECRIM<\/strong><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Problema real n\u00e3o \u00e9 uniformiza\u00e7\u00e3o (leg\u00edtima e necess\u00e1ria), mas quem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"footnotes":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false}}},"categories":[9],"tags":[],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/paFpWR-g1N","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61615"}],"collection":[{"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=61615"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61615\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":61616,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/61615\/revisions\/61616"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=61615"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=61615"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=61615"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}