{"id":52867,"date":"2025-07-04T10:32:02","date_gmt":"2025-07-04T13:32:02","guid":{"rendered":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/?p=52867"},"modified":"2025-07-04T10:32:02","modified_gmt":"2025-07-04T13:32:02","slug":"regime-proprio-de-seguradoras-e-operadoras-de-saude-na-reforma-tributaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/2025\/07\/04\/regime-proprio-de-seguradoras-e-operadoras-de-saude-na-reforma-tributaria\/","title":{"rendered":"REGIME PR\u00d3PRIO DE SEGURADORAS E OPERADORAS DE SA\u00daDE NA REFORMA TRIBUT\u00c1RIA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Os anos de 2023 a 2025 consolidaram o per\u00edodo da maior transforma\u00e7\u00e3o do sistema tribut\u00e1rio brasileiro desde a promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. A Emenda Constitucional n\u00ba 132\/2023 refundou o modelo constitucional de tributa\u00e7\u00e3o sobre o consumo, inspirada pelo trabalho do Centro de Cidadania Fiscal (CCiF) em conjunto com entidades da sociedade civil e o Parlamento.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">As principais inova\u00e7\u00f5es incluem os par\u00e1grafos 3\u00ba e 4\u00ba do artigo 145 da Constitui\u00e7\u00e3o, que cristalizaram como princ\u00edpios constitucionais a simplicidade, a transpar\u00eancia, a justi\u00e7a tribut\u00e1ria, a coopera\u00e7\u00e3o, a defesa do meio ambiente e atenua\u00e7\u00e3o da regressividade tribut\u00e1ria. Emerge tamb\u00e9m o princ\u00edpio da n\u00e3o-cumulatividade plena aplicada \u00e0 tributa\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o de bens ou presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os (artigos 149-B, inciso IV, 156-A e 195, inciso V da CRFB\/88), que constitui o cerne do IVA (Imposto sobre o Valor Agregado), instrumento not\u00e1vel por sua transpar\u00eancia, simplicidade e progressividade naturais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Em complemento \u00e0 EC n\u00ba 132\/23, foi sancionada, em janeiro de 2025, a LCP 214\/25, que regulamentou, no plano infraconstitucional, o IBS (Imposto sobre Bens e Servi\u00e7os) e a CBS (Contribui\u00e7\u00e3o sobre Bens e Servi\u00e7os). Estes tributos representam a nova face do IVA-Dual Brasileiro, substituindo o ICMS, o ISS, o PIS, a Cofins e o IPI (parcialmente).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>Tributa\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os de operadoras e seguros de sa\u00fade sob a LCP 214\/25<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A LCP 214\/25 instituiu um regime geral de tributa\u00e7\u00e3o do consumo amplamente n\u00e3o-cumulativo, neutro, progressivo e com o foco na tributa\u00e7\u00e3o do valor agregado pelos elos da cadeia produtiva, evitando tributa\u00e7\u00e3o em cascata e afastando a regressividade tribut\u00e1ria. Nesse contexto, import\u00e2ncias n\u00e3o vinculadas ao conceito de \u201cvalor-agregado\u201d ordinariamente n\u00e3o integrar\u00e3o a base da tributa\u00e7\u00e3o, tais como receitas financeiras e o pr\u00f3prio IVA recolhido nas etapas anteriores da cadeia produtiva.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A LCP 214\/25 estabeleceu um regime tribut\u00e1rio espec\u00edfico para as operadoras e seguradoras de planos de assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade, levando em conta a relev\u00e2ncia do setor de sa\u00fade suplementar e sua complementariedade com a sa\u00fade p\u00fablica, respeitando sua relev\u00e2ncia \u00e0 universaliza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 sa\u00fade, conforme artigos 196 a 200 da Constitui\u00e7\u00e3o, bem como a exist\u00eancia de mais de 51 milh\u00f5es de benefici\u00e1rios de planos de sa\u00fade (em 2024) em nosso pa\u00eds. Apesar de muitos avan\u00e7os e moderniza\u00e7\u00e3o na legisla\u00e7\u00e3o tribut\u00e1ria que trata do Setor, ainda h\u00e1 pontos de melhorias e, at\u00e9 mesmo, alguns retrocessos pass\u00edveis de aprimoramento no texto, como posto.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>Sujeitos Passivos do IBS e da CBS<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O artigo 234 da LCP 214\/25 sujeita ao regime espec\u00edfico os servi\u00e7os prestados por:<\/span><\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">seguradoras de sa\u00fade;<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">administradoras de benef\u00edcios;<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">cooperativas operadoras de planos de sa\u00fade;<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">cooperativas de seguro sa\u00fade; e<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">demais operadoras de planos de assist\u00eancia \u00e0 sa\u00fade. Este escopo amplo garante uniformidade tribut\u00e1ria setorial, evitando distor\u00e7\u00f5es competitivas entre diferentes modalidades de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de sa\u00fade suplementar.<\/span><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>Base de c\u00e1lculo e metodologia de tributa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A base de c\u00e1lculo das seguradoras e operadoras de planos de sa\u00fade est\u00e1 estabelecida no artigo 235 da LCP 214\/25 e representa uma boa escolha do legislador para desenhar o modelo de tributa\u00e7\u00e3o do IVA-Dual, pois estabelece a regra de basis on basis, elegendo a margem l\u00edquida como aspecto quantitativo material do fato gerador, compreendendo:<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">1.a) Ingressos (Elementos positivos): receitas dos servi\u00e7os, pr\u00eamios, corresponsabilidades, contrapresta\u00e7\u00f5es e receitas financeiras dos ativos garantidores das reservas t\u00e9cnicas efetivamente liquidadas;<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">2.b) Dedu\u00e7\u00f5es (Elementos negativos): sinistros, indeniza\u00e7\u00f5es pagas, cancelamentos, restitui\u00e7\u00f5es, custos com intermedia\u00e7\u00e3o e taxas de administra\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Simultaneamente, a legisla\u00e7\u00e3o admite que os agentes do setor se valham do regime de n\u00e3o-cumulatividade plena para suas aquisi\u00e7\u00f5es desvinculadas da atividade assistencial (os sinistros e custos de administra\u00e7\u00e3o que j\u00e1 s\u00e3o integralmente deduzidos da base de c\u00e1lculo). Esta metodologia moderna revela clara inspira\u00e7\u00e3o no direito tribut\u00e1rio internacional moderno, particularmente nas experi\u00eancias da Austr\u00e1lia, Nova Zel\u00e2ndia e de Singapura, que adotaram sistemas de tributa\u00e7\u00e3o sobre a margem dos servi\u00e7os de intermedia\u00e7\u00e3o securit\u00e1ria e possibilidade de creditamento ao longo da cadeia, aproximando-se do \u201cValor efetivamente Agregado\u201d pelos agentes setoriais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>Regime de al\u00edquotas e creditamento<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Outro avan\u00e7o do texto consiste no artigo 237 da LCP 214\/25, que estabelece al\u00edquotas nacionalmente uniformes, correspondentes \u00e0s al\u00edquotas de refer\u00eancia reduzidas em 60%, evidenciando a relev\u00e2ncia e o car\u00e1ter social da tributa\u00e7\u00e3o sobre servi\u00e7os de sa\u00fade e preservando a neutralidade tribut\u00e1ria do setor, evitando debates sobre guerra fiscal ou interven\u00e7\u00e3o da tributa\u00e7\u00e3o na organiza\u00e7\u00e3o dos fatores de produ\u00e7\u00e3o dos contribuintes do setor.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Ainda h\u00e1 um significativo avan\u00e7o, em prol da progressividade e redu\u00e7\u00e3o de res\u00edduos na cadeia, considerando que as operadoras e seguradoras de planos de sa\u00fade asseguraram o direito ao cr\u00e9dito amplo e integral de todas as suas aquisi\u00e7\u00f5es e contrata\u00e7\u00f5es no regime geral (com exce\u00e7\u00e3o dos sinistros pagos, despesas assistenciais e demais import\u00e2ncias deduzidas da sua base de c\u00e1lculo conforme artigo 235 da LCP 214\/25).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Entretanto, o artigo 238 da mesma lei apenas autoriza o cr\u00e9dito de IBS e CBS para os adquirentes (contratantes\/estipulantes) pessoas jur\u00eddicas que contratem essas coberturas para seus empregados em decorr\u00eancia de Acordo ou Conven\u00e7\u00e3o Coletiva, restringindo as hip\u00f3teses de n\u00e3o cumulatividade, em leitura conjunta com o artigo 57, \u00a73\u00ba, inciso IV, al\u00ednea \u201cf\u201d, da LCP 214\/25. O cr\u00e9dito do IVA fica limitado ao resultado de uma f\u00f3rmula que considera o valor efetivamente custeado pela pessoa jur\u00eddica na contrata\u00e7\u00e3o dos planos de sa\u00fade (excluindo os valores de coparticipa\u00e7\u00e3o repassados aos funcion\u00e1rios) e o valor do IVA efetivamente pago pela pr\u00f3pria operadora ou seguradora de planos de sa\u00fade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Essas restri\u00e7\u00f5es podem acabar por desestimular a cobertura de vidas pelos empregadores a seus empregados, sendo certo que os planos corporativos representam cerca de 80% (oitenta por cento) do mercado de planos de sa\u00fade coletivos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>Ponto cr\u00edtico: tributa\u00e7\u00e3o das receitas financeiras dos ativos garantidores das reservas t\u00e9cnicas<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>A previs\u00e3o legislativa e suas condi\u00e7\u00f5es<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O artigo 235 da LCP 214\/25 inclui as receitas financeiras dos ativos garantidores das reservas t\u00e9cnicas na base de c\u00e1lculo do IBS e CBS, constituindo exce\u00e7\u00e3o \u00e0 regra geral do novo sistema de tributa\u00e7\u00e3o sobre o consumo, que, ordinariamente n\u00e3o tributa receitas financeiras (exceto institui\u00e7\u00f5es financeiras banc\u00e1rias t\u00edpicas).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Ainda assim, no caso das seguradoras e operadoras de planos de sa\u00fade, o \u00a7 4\u00ba do artigo 235 estabeleceu crit\u00e9rios rigorosos para o reconhecimento das receitas financeiras como efetivamente liquidadas, exigindo cumulativa e concomitantemente: a liquida\u00e7\u00e3o ou resgate do ativo garantidor; e a redu\u00e7\u00e3o do total das provis\u00f5es t\u00e9cnicas lastreadas por ativo garantidor. Assim, na hip\u00f3tese de ocorr\u00eancia cumulativa e concomitante das duas condi\u00e7\u00f5es acima admitir-se-ia, em nossa leitura fria da legisla\u00e7\u00e3o posta, a inclus\u00e3o da receita financeira relativa \u00e0quele per\u00edodo de apura\u00e7\u00e3o espec\u00edfico (n\u00e3o a sua totalidade) na base de c\u00e1lculo do IBS e da CBS.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O \u00a7 6\u00ba exclui da base de c\u00e1lculo receitas financeiras desvinculadas da aloca\u00e7\u00e3o de recursos oriundos do recebimento de pr\u00eamios e contrapresta\u00e7\u00f5es formadores dos ativos garantidores das reservas t\u00e9cnicas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>Conflito com o posicionamento do STF<\/strong><\/span><\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>Precedente do RE 400.479-RJ e Tema 1.309<\/strong><\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O julgamento do RE n\u00ba 400.479-RJ pelo STF representa marco jurisprudencial sobre tributa\u00e7\u00e3o das receitas financeiras das reservas t\u00e9cnicas. O voto condutor do ministro Cezar Peluso, complementado pelo ministro Dias Toffoli, estabeleceu distin\u00e7\u00e3o fundamental entre receitas da atividade empresarial t\u00edpica e receitas financeiras de aplica\u00e7\u00f5es compuls\u00f3rias.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Importante destacar que, em agosto de 2024, o STF reconheceu por unanimidade a repercuss\u00e3o geral do Tema 1.309, que trata especificamente da \u201cExigibilidade do PIS e da Cofins sobre as receitas financeiras oriundas de aplica\u00e7\u00f5es financeiras das reservas t\u00e9cnicas de empresas seguradoras\u201d. O relator, ministro Luiz Fux, em sua manifesta\u00e7\u00e3o, afirmou que o tema se distingue do Tema 372 (institui\u00e7\u00f5es financeiras puras), reconhecendo a atividade t\u00edpica das seguradoras \u00e9 absolutamente diferente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Enquanto para as institui\u00e7\u00f5es financeiras as receitas financeiras constituem atividade empresarial t\u00edpica (spread banc\u00e1rio), para as seguradoras representam atividade-meio legalmente imposta para garantir a solv\u00eancia e prote\u00e7\u00e3o dos segurados e absolutamente desvinculada do servi\u00e7o (obriga\u00e7\u00e3o de fazer).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Como enfatizado no parecer do ministro Cezar Peluso: \u201cas institui\u00e7\u00f5es financeiras recebem valores que entram no seu faturamento a t\u00edtulo de contrapresta\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os t\u00edpicos que prestam aos clientes, ao passo que as seguradoras recebem renda financeira do que s\u00e3o, por lei, obrigadas a investir para garantia dos compromissos contratuais, n\u00e3o porque sejam contrapresta\u00e7\u00e3o de presta\u00e7\u00e3o t\u00edpica a terceiros, sen\u00e3o a t\u00edtulo de condi\u00e7\u00e3o das suas futuras presta\u00e7\u00f5es \u201c.<\/span><\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>Conceito de Faturamento e Atividade Empresarial T\u00edpica<\/strong><\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O RE 400.479-RJ esclareceu que \u201ca legisla\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica conectada ao PIS\/COFINS demonstra que o conceito de faturamento sempre significou receita bruta operacional decorrente das atividades empresariais t\u00edpicas \u201c. Para seguradoras, a atividade t\u00edpica consiste em \u201coferecer o contrato de seguro e cobrir os riscos assumidos \u201c, sendo o pr\u00eamio ou as mensalidades, a \u00fanica contrapresta\u00e7\u00e3o recebida em fun\u00e7\u00e3o dos interesses garantidos e dos riscos predeterminados (os servi\u00e7os propriamente ditos).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O que se determinou, categoricamente, foi que \u201c\u00e9 certo que n\u00e3o decorrem da atividade empresarial t\u00edpica das seguradoras as receitas financeiras oriundas das aplica\u00e7\u00f5es financeiras das reservas t\u00e9cnicas\u201d, reiterando a compreens\u00e3o do ministro Cezar Peluso em seu voto origin\u00e1rio e seu parecer sobre o caso firmando que \u201c\u00e9 o pr\u00eamio que decorre da atividade empresarial t\u00edpica das seguradoras, e n\u00e3o outras receitas alheias ao desempenho de seu mister t\u00edpico, como s\u00e3o as receitas financeiras em quest\u00e3o\u201d.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A rigor, a natureza jur\u00eddica das receitas dos ativos garantidores que lastreiam as reservas t\u00e9cnicas revela incompatibilidade absoluta com o conceito de \u201cpresta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o\u201d ou \u201creceita operacional decorrente da presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o\u201d. Conforme estabelecido no artigo 84 do Decreto-Lei n\u00ba 73\/1966, a constitui\u00e7\u00e3o de reservas t\u00e9cnicas e a manuten\u00e7\u00e3o de ativos garantidores dessas reservas representa obriga\u00e7\u00e3o legal imposta \u201cpara garantia de todas as suas obriga\u00e7\u00f5es\u201d (por isso tamb\u00e9m denominadas \u201caplica\u00e7\u00f5es compuls\u00f3rias \u201c), n\u00e3o derivando de escolha empresarial ou estrat\u00e9gia comercial. H\u00e1, ainda, o artigo 96, al\u00ednea \u2018b\u2019, do Decreto-Lei n\u00ba 73\/1966, que prev\u00ea a \u201ccessa\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria das opera\u00e7\u00f5es\u201d para sociedades seguradoras que n\u00e3o formarem as reservas t\u00e9cnicas ou deixarem de aplic\u00e1-las conforme prescrito.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Tamb\u00e9m o artigo 85 do Decreto-Lei n\u00ba 73\/1966 estabelece que os ativos garantidores das reservas \u201cdevem ser registrados na Susep e s\u00e3o inalien\u00e1veis, n\u00e3o podendo as sociedades seguradoras distribu\u00edrem lucros\u201d correspondentes a essas reservas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">As receitas financeiras relativas \u00e0s aplica\u00e7\u00f5es compuls\u00f3rias das reservas t\u00e9cnicas, portanto, n\u00e3o decorrem de atos de organiza\u00e7\u00e3o empresarial volunt\u00e1ria, mas de obriga\u00e7\u00e3o legal, indispon\u00edveis, inacess\u00edveis e invi\u00e1veis de compor contrapresta\u00e7\u00e3o pelo servi\u00e7o securit\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>Riscos \u00e0 seguran\u00e7a jur\u00eddica<\/strong><\/span><\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>Viola\u00e7\u00e3o ao princ\u00edpio da seguran\u00e7a jur\u00eddica<\/strong><\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A inclus\u00e3o das receitas financeiras dos ativos garantidores das reservas t\u00e9cnicas na base de c\u00e1lculo do IBS e CBS, conforme previsto no artigo 235 e seguintes da LCP 214\/25, representa amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a jur\u00eddica tribut\u00e1ria brasileira, configurando retrocesso em rela\u00e7\u00e3o aos avan\u00e7os jurisprudenciais consolidados pelo Supremo Tribunal Federal e pelos TRFs p\u00e1trios.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A seguran\u00e7a jur\u00eddica, na conceitua\u00e7\u00e3o de Humberto \u00c1vila [1], manifesta-se atrav\u00e9s de tr\u00eas dimens\u00f5es fundamentais: cognoscibilidade, confiabilidade e calculabilidade do direito. No contexto tribut\u00e1rio, essas dimens\u00f5es exigem que o contribuinte possa conhecer previamente suas obriga\u00e7\u00f5es, confiar na estabilidade das normas e decis\u00f5es e calcular adequadamente os efeitos tribut\u00e1rios de suas condutas em suas palavras: \u201cs\u00f3 existe seguran\u00e7a quando o direito for compreens\u00edvel, est\u00e1vel e previs\u00edvel \u201c.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Em nosso entender, o modelo da LCP 214\/25, ao incluir receitas financeiras dos ativos garantidores das reservas t\u00e9cnicas na base tribut\u00e1ria, contraria esses tr\u00eas requisitos, criando incerteza jur\u00eddica em \u00e1rea j\u00e1 pacificada pela jurisprud\u00eancia constitucional.<\/span><\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>Insufici\u00eancia dos crit\u00e9rios restritivos da nova lei<\/strong><\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Embora a LCP 214\/25 tenha estabelecido condi\u00e7\u00f5es cumulativas rigorosas para a tributa\u00e7\u00e3o das receitas financeiras dos ativos garantidores das reservas t\u00e9cnicas (\u00a7 4\u00ba do artigo 235), essa estrat\u00e9gia normativa n\u00e3o resolve o problema fundamental de inseguran\u00e7a jur\u00eddica. Se os juros n\u00e3o se destinam a remunerar a seguradora, mas a aumentar reserva destinada \u00e0 cobertura dos interesses do segurado e garantir eventual disp\u00eandio que venha a ocorrer, \u00e9 certo que n\u00e3o h\u00e1 disponibilidade sobre tais montantes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A aus\u00eancia de disponibilidade compromete a pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o de tais valores enquanto receita da seguradora e o fato mais relevante: em nenhum cen\u00e1rio essas receitas financeiras representariam contrapartida \u00e0 \u201cpresta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os\u201d ou resultado da presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os das seguradoras e operadoras de planos de sa\u00fade, ademais, os crit\u00e9rios restritivos, embora tentem endere\u00e7ar quest\u00e3o complexa, n\u00e3o evidenciam qual seriam os aspectos temporais\/materiais para a eventual inclus\u00e3o dessas receitas financeiras na base de c\u00e1lculo do IBS e da CBS. Se os juros destinam-se a aumentar reserva para cobertura dos interesses do segurado, n\u00e3o h\u00e1 disponibilidade sobre tais montantes, comprometendo a pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o enquanto receita da seguradora.<\/span><\/p>\n<ul style=\"text-align: justify;\">\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>Viola\u00e7\u00e3o ao conceito constitucional de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os<\/strong><\/span><\/li>\n<\/ul>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">As disposi\u00e7\u00f5es do artigo 235 incorrem em v\u00edcio de constitucionalidade ao desconsiderarem que a Constitui\u00e7\u00e3o define a regra-matriz do IBS e CBS como esp\u00e9cies tribut\u00e1rias incidentes \u201csobre bens e servi\u00e7os\u201d. N\u00e3o \u00e9 constitucionalmente adequada a exig\u00eancia desses tributos sobre \u201creceitas financeiras dos ativos garantidores\u201d, uma vez que estas n\u00e3o decorrem da presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o realizada pelas seguradoras.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Existe distin\u00e7\u00e3o fundamental entre \u201c<em>resultados\/receitas operacionais decorrentes da atividade-fim\u201d<\/em> e \u201creceitas at\u00edpicas ou n\u00e3o operacionais\u201d. A receita pela presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os \u00e9 a \u201cexpress\u00e3o da receita advinda da realiza\u00e7\u00e3o da finalidade da empresa ou de seu objeto social\u201c, excluindo \u201creceitas puramente financeiras\u201d, conforme decidiu o Plen\u00e1rio do STF no RE 400.479-RJ.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A tentativa de incluir no campo de incid\u00eancia do IBS e da CBS as receitas financeiras dos ativos garantidores, mesmo com condi\u00e7\u00f5es restritivas, contradiz frontalmente a prescri\u00e7\u00e3o constitucional, pois a \u201creceita ou contrapartida financeira pela presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7o\u201d deve ser entendida como aquela decorrente da atividade econ\u00f4mica t\u00edpica\/principal, em raz\u00e3o da qual a sociedade se organizou para desempenhar (Decreto-Lei n\u00ba 1.598\/1977). A rigor, a nosso ver, a previs\u00e3o do inciso I, b e \u00a74\u00ba do artigo 235 da LCP 214\/25 repristina discuss\u00e3o j\u00e1 ultrapassada pela jurisprud\u00eancia firme sobre o tema.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>Conclus\u00f5es<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Pelo exposto, podemos concluir que o novo sistema tribut\u00e1rio brasileiro de tributa\u00e7\u00e3o sobre o consumo, implementado pela EC 132\/23 e pela LCP 214\/25, com a cria\u00e7\u00e3o do IVA-Dual (IBS e CBS), representa importante avan\u00e7o para a sociedade brasileira, especialmente por privilegiar a neutralidade, a simplicidade, a n\u00e3o-cumulatividade e buscar afastar a regressividade do sistema atual, no que respeita \u00e0 Sa\u00fade Suplementar.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Entretanto, mesmo reconhecendo o avan\u00e7o sist\u00eamico do modelo proposto, h\u00e1 evidentes pontos de melhoria (e at\u00e9 mesmo retrocesso) que devem ser observados e saneados pelo Legislativo e, em \u00faltima an\u00e1lise, pelo Judici\u00e1rio, especificamente no que se refere:<\/span><\/p>\n<ol style=\"text-align: justify;\">\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">\u00c0 melhor defini\u00e7\u00e3o na apropria\u00e7\u00e3o de cr\u00e9ditos dos tributos pelos contratantes dos planos de sa\u00fade coletivos, buscando a flexibiliza\u00e7\u00e3o da restri\u00e7\u00e3o atual que limita o creditamento apenas aos casos decorrentes de acordo ou conven\u00e7\u00e3o coletiva, o que pode desestimular a oferta desse benef\u00edcio essencial aos trabalhadores; e<\/span><\/li>\n<li><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">\u00c0 exclus\u00e3o das receitas financeiras dos ativos garantidores das reservas t\u00e9cnicas da base de c\u00e1lculo do IBS e CBS, em conson\u00e2ncia com o entendimento mais recente do STF e com as melhores pr\u00e1ticas internacionais [2], evitando a tributa\u00e7\u00e3o de receitas que n\u00e3o representam contrapartida pelos servi\u00e7os prestados.<\/span><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Clique <a href=\"https:\/\/www.conjur.com.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Artigo-GAS-Versao-Completa.pdf\">aqui<\/a> para ler o artigo na \u00edntegra<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">____________________________________________________________________________<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 10pt;\">[1] \u00c1VILA, Humberto. Teoria da Seguran\u00e7a Jur\u00eddica. 6. ed. S\u00e3o Paulo: Malheiros\/JusPodivm, 2021.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif; font-size: 10pt;\">[2] Em estudo comparativo internacional realizado pelo Insper, de lavra dos professores Breno Vasconcelos e Thais Shingai, dentre mais de 117 pa\u00edses analisados (com modelo de IVA), identificou-se que 78% isentavam, tratavam como n\u00e3o-tribut\u00e1vel ou concediam al\u00edquota zero aos servi\u00e7os de sa\u00fade (incluindo os servi\u00e7os de seguro-sa\u00fade), e mais 4% dos pa\u00edses analisados traziam regimes com al\u00edquotas beneficiadas, totalizando 82% dos pa\u00edses analisados com nenhuma tributa\u00e7\u00e3o ou baixa tributa\u00e7\u00e3o sobre servi\u00e7os de sa\u00fade (incluindo seguros-sa\u00fade).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>FONTE: CONSULTOR JUR\u00cdDICO &#8211; POR GABRIEL ABRANTES<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os anos de 2023 a 2025 consolidaram o per\u00edodo da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"footnotes":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false}}},"categories":[9],"tags":[],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/paFpWR-dKH","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52867"}],"collection":[{"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=52867"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52867\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":52868,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52867\/revisions\/52868"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=52867"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=52867"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=52867"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}