{"id":66040,"date":"2026-08-04T09:44:23","date_gmt":"2026-08-04T12:44:23","guid":{"rendered":"https:\/\/bonettiassociados.com.br\/?p=66040"},"modified":"2026-08-04T09:44:23","modified_gmt":"2026-08-04T12:44:23","slug":"reforma-tributaria-e-pejotizacao-novo-arquetipo-das-sociedades-profissionais","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/2026\/08\/04\/reforma-tributaria-e-pejotizacao-novo-arquetipo-das-sociedades-profissionais\/","title":{"rendered":"REFORMA TRIBUT\u00c1RIA E PEJOTIZA\u00c7\u00c3O: NOVO ARQU\u00c9TIPO DAS SOCIEDADES PROFISSIONAIS"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O art. 127 da LC 214\/25 e seus reflexos interpretativos no debate previdenci\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">H\u00e1 d\u00e9cadas o ordenamento jur\u00eddico brasileiro convive com uma omiss\u00e3o relevante: n\u00e3o h\u00e1, de forma positiva e expressa, defini\u00e7\u00e3o geral sobre o que seria uma contrata\u00e7\u00e3o leg\u00edtima de servi\u00e7os profissionais por pessoa jur\u00eddica, dentro do que se passou a chamar de pejotiza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">As diretrizes que foram criadas ao longo do tempo sempre se contentaram em dizer o que essa estrutura n\u00e3o pode ser. A constru\u00e7\u00e3o do tema se deu invariavelmente por crit\u00e9rios negativos, como se constru\u00edsse uma lista do que n\u00e3o cabe, do que n\u00e3o se enquadra e do que descaracteriza a contrata\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Dentro da perspectiva fiscal para fins de contribui\u00e7\u00f5es previdenci\u00e1rias (e reten\u00e7\u00e3o de imposto de renda na fonte), analisa-se a contrata\u00e7\u00e3o de pessoa jur\u00eddica de forma investigativa, indagando-se: h\u00e1, sob a roupagem societ\u00e1ria, subordina\u00e7\u00e3o, pessoalidade, habitualidade e onerosidade nos termos celetistas?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Em caso afirmativo, declara-se o v\u00ednculo empregat\u00edcio e desconsidera-se a forma. No contencioso administrativo fiscal, a discuss\u00e3o frequentemente apresenta desfecho desfavor\u00e1vel aos contribuintes, ainda que diante da insufici\u00eancia de provas quanto \u00e0 presen\u00e7a de elementos t\u00edpicos da rela\u00e7\u00e3o de emprego.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Mesmo o Supremo Tribunal Federal (STF), ao firmar marcos relevantes nessa mat\u00e9ria para fins trabalhistas, mas com invari\u00e1vel repercuss\u00e3o fiscal \u2014 Tema 725, ADPF 324 e, mais recentemente, o reconhecimento de repercuss\u00e3o geral no Tema 1.389 \u2014, seguiu pela via negativa: declarou l\u00edcita a contrata\u00e7\u00e3o via pessoa jur\u00eddica desde que ausentes os elementos t\u00edpicos de emprego. A afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 claramente correta, mas n\u00e3o ajuda a resolver as situa\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A premissa subjacente \u00e9 a da liberdade contratual e da autonomia privada, modulada pela primazia da realidade. Em nenhum momento, contudo, houve, em termos afirmativos, qual seria o modelo padr\u00e3o de pessoa jur\u00eddica prestadora de servi\u00e7os profissionais merecedor de chancela positiva dentro do tema pejotiza\u00e7\u00e3o, o que certamente diminuiria a inseguran\u00e7a jur\u00eddica vivenciada no tema.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Esse v\u00e1cuo definit\u00f3rio, mantido por d\u00e9cadas, recebeu novo elemento \u2014 discreto e talvez inadvertido \u2014 a partir da reforma tribut\u00e1ria do consumo. A Lei Complementar 214\/2025 reconheceu, para fins fiscais, a possibilidade de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os intelectuais por meio de pessoa jur\u00eddica. O artigo 127 da Lei, ao estabelecer um regime diferenciado com redu\u00e7\u00e3o de al\u00edquota, descreveu requisitos objetivos para que determinadas sociedades profissionais possam se beneficiar desse tratamento.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O par\u00e1grafo 1\u00ba, inciso I, do mencionado artigo 127 trata da possibilidade de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os realizada por pessoa f\u00edsica sem a presen\u00e7a de v\u00ednculo empregat\u00edcio, tendo em vista que o artigo 6\u00ba disp\u00f5e que o IBS e a CBS n\u00e3o incidem sobre o fornecimento de servi\u00e7os por pessoa f\u00edsica com rela\u00e7\u00e3o de emprego.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Por sua vez, o inciso II desse mesmo par\u00e1grafo 1\u00ba estabeleceu cinco requisitos cumulativos para o caso de presta\u00e7\u00e3o por pessoa jur\u00eddica: (i) s\u00f3cios com habilita\u00e7\u00f5es profissionais diretamente relacionadas aos objetivos da sociedade e submetidos \u00e0 fiscaliza\u00e7\u00e3o de conselho profissional; (ii) veda\u00e7\u00e3o \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de pessoa jur\u00eddica como s\u00f3cia; (iii) veda\u00e7\u00e3o a que a sociedade seja s\u00f3cia de outra pessoa jur\u00eddica; (iv) impossibilidade de exercer atividade diversa das habilita\u00e7\u00f5es dos s\u00f3cios; e (v) presta\u00e7\u00e3o direta dos servi\u00e7os de atividade-fim pelos pr\u00f3prios s\u00f3cios, admitidos auxiliares e colaboradores.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">\u00c0 primeira leitura, esses requisitos parecem mera condi\u00e7\u00e3o de frui\u00e7\u00e3o de um benef\u00edcio fiscal espec\u00edfico, sem pretens\u00e3o direta de produzir efeitos previdenci\u00e1rios. Contudo, a leitura mais atenta revela algo distinto: o legislador, ao detalhar com tanta min\u00facia o perfil da sociedade merecedora do redutor, acabou por desenhar \u2014 no \u00e2mbito da tributa\u00e7\u00e3o sobre consumo \u2014 um tipo ideal de pessoa jur\u00eddica de profissionais. E tipos ideais raramente permanecem confinados ao contexto que lhes deu origem.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A proposi\u00e7\u00e3o central \u00e9 a de que esses cinco requisitos, somados, configuram aquilo que se pode designar como um arqu\u00e9tipo legal relevante de sociedade profissional prestadora de servi\u00e7os intelectuais, sem preju\u00edzo de que a legitimidade de outras estruturas tamb\u00e9m possa ser reconhecida caso n\u00e3o preenchidos todos esses requisitos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A descri\u00e7\u00e3o \u00e9 simultaneamente formal e material: do ponto de vista formal, exige composi\u00e7\u00e3o societ\u00e1ria pura, sem s\u00f3cios capitalistas ou pessoas jur\u00eddicas, e isolamento patrimonial em rela\u00e7\u00e3o a outras sociedades; do ponto de vista material, exige unidade de objeto, vinculado \u00e0s habilita\u00e7\u00f5es profissionais dos s\u00f3cios, e presta\u00e7\u00e3o direta da atividade-fim por estes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A figura que emerge \u00e9 familiar: trata-se, em ess\u00eancia, da sociedade simples uniprofissional, categoria conhecida desde o Decreto-Lei 406\/1968 e amplamente trabalhada pela jurisprud\u00eancia do Superior Tribunal de Justi\u00e7a (STJ) e do STF a prop\u00f3sito do Imposto sobre Servi\u00e7os (ISS) e do conceito de elemento de empresa do artigo 966, par\u00e1grafo \u00fanico, do C\u00f3digo Civil.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A novidade n\u00e3o est\u00e1 na figura em si, mas em sua nova dire\u00e7\u00e3o normativa. O que era debate municipal sobre o ISS, casu\u00edstico e dependente de jurisprud\u00eancia local, ganha agora, no \u00e2mbito do IBS e da CBS, uma formula\u00e7\u00e3o nacional em lei complementar. A consequ\u00eancia imediata, no plano da t\u00e9cnica legislativa, \u00e9 relevante: pela primeira vez, o ordenamento brasileiro descreveu, de forma positiva e expressa, um modelo de pessoa jur\u00eddica de profissionais prestadores de servi\u00e7os de natureza intelectual que considera apto a determinado tratamento tribut\u00e1rio. H\u00e1, ali, uma descri\u00e7\u00e3o normativa, n\u00e3o apenas aspectos excludentes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Os debates sobre o artigo 127 v\u00eam se concentrando nos efeitos econ\u00f4micos da redu\u00e7\u00e3o de al\u00edquota, no rol legal de profiss\u00f5es beneficiadas e na rigidez dos requisitos do par\u00e1grafo primeiro, inciso II, vistos como travas antielisivas destinadas a impedir o uso indevido do redutor por grandes estruturas empresariais. Contudo, o que ora se faz \u00e9 observar o artigo 127 para al\u00e9m do \u00e2mbito estrito do IBS e da CBS, vendo-o como elemento normativo de natureza tribut\u00e1ria que pode produzir reflexos interpretativos no debate previdenci\u00e1rio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Defini\u00e7\u00f5es nascidas em determinado contexto normativo t\u00eam tradicionalmente migrado para outros contextos, contaminando interpreta\u00e7\u00f5es e fundamentando autua\u00e7\u00f5es, sobretudo quando preenchem v\u00e1cuos definit\u00f3rios preexistentes. Por essa raz\u00e3o, \u00e9 razo\u00e1vel antecipar que o arqu\u00e9tipo desenhado pelo artigo 127 n\u00e3o permanecer\u00e1 necessariamente confinado ao debate sobre o redutor de IBS e CBS.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">\u00c9 plaus\u00edvel que esse modelo passe a ser invocado como refer\u00eancia interpretativa em outras searas, como na qualifica\u00e7\u00e3o de estruturas de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os por pessoa jur\u00eddica para fins previdenci\u00e1rios, dentro das discuss\u00f5es sobre pejotiza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O legislador, ao reconhecer a presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os intelectuais por meio de pessoa jur\u00eddica e definir os requisitos necess\u00e1rios ao tratamento favorecido, passou, ainda que sem pretens\u00e3o declarada, a oferecer uma refer\u00eancia positiva para a identifica\u00e7\u00e3o de sociedades profissionais genu\u00ednas que exercem atividade intelectual, podendo legitimar a chamada pejotiza\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Os artigos publicados pelo JOTA n\u00e3o refletem necessariamente a opini\u00e3o do site. Os textos buscam estimular o debate sobre temas importantes para o pa\u00eds, sempre prestigiando a pluralidade de ideias.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>FONTE: JOTA &#8211; POR ISABEL BUENO E ERNESTO LINO<\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong><u>\u00a0<\/u><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O art. 127 da LC 214\/25 e seus reflexos interpretativos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"footnotes":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false}}},"categories":[9],"tags":[],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/paFpWR-hba","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66040"}],"collection":[{"href":"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=66040"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66040\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":66041,"href":"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/66040\/revisions\/66041"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=66040"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=66040"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=66040"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}