{"id":13079,"date":"2020-11-16T10:07:51","date_gmt":"2020-11-16T13:07:51","guid":{"rendered":"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/?p=13079"},"modified":"2020-11-16T10:07:51","modified_gmt":"2020-11-16T13:07:51","slug":"a-multa-tributaria-de-100-e-confiscatoria","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/2020\/11\/16\/a-multa-tributaria-de-100-e-confiscatoria\/","title":{"rendered":"A MULTA TRIBUT\u00c1RIA DE 100% \u00c9 CONFISCAT\u00d3RIA?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O Supremo Tribunal Federal tem afirmado h\u00e1 tempos que, regra geral, \u00e9 confiscat\u00f3ria a multa tribut\u00e1ria que exceda 100% [1].<\/span><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A verifica\u00e7\u00e3o da jurisprud\u00eancia do STF indica que a fixa\u00e7\u00e3o de 100% \u00e9 o limite por basicamente dois motivos: 1) car\u00e1ter pedag\u00f3gico da san\u00e7\u00e3o, reconhecida a possibilidade de aplica\u00e7\u00e3o da multa tribut\u00e1ria em percentual mais rigoroso [2]; 2) deve ser respeitada a proporcionalidade e n\u00e3o viol\u00eancia ao princ\u00edpio da proibi\u00e7\u00e3o ao confisco, artigo 150, IV, da Constitui\u00e7\u00e3o Federal [3].<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Nosso interesse aqui \u00e9 colocar um in\u00edcio de discuss\u00e3o sobre a fundamenta\u00e7\u00e3o da afirma\u00e7\u00e3o judicial de que 100% \u00e9 porcentagem adequada e razo\u00e1vel. Quais as raz\u00f5es bastantes de que se ocupa o STF no dimensionamento desta afirma\u00e7\u00e3o, que tem efeitos panprocessuais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Fixemos que o confisco seria a indevida apropria\u00e7\u00e3o de patrim\u00f4nio do contribuinte atrav\u00e9s de exig\u00eancia tribut\u00e1ria excessiva. O ponto \u00e9 justamente este: em que momento podemos falar em excessividade da procura estatal de imposi\u00e7\u00e3o, no caso, de multa tribut\u00e1ria. Cem por cento \u00e9 muito? \u00c9 pouco? Quanto \u00e9 pouco? Quanto \u00e9 muito?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Contudo, nos julgados que pudemos investigar, n\u00e3o encontramos nenhum desenvolvimento do princ\u00edpio da proporcionalidade para explicitar e justificar a razoabilidade da multa de 100%, atrav\u00e9s da fundamenta\u00e7\u00e3o dos requisitos necess\u00e1rios da proporcionalidade que, se fosse poss\u00edvel resumi-los na lei do sopesamento do professor alem\u00e3o Robert Alexy [4], seriam: 1) adequa\u00e7\u00e3o; 2) necessidade; e 3) proporcionalidade em sentido estrito [5].<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Tampouco verificamos a figura\u00e7\u00e3o da fundamenta\u00e7\u00e3o pela proibi\u00e7\u00e3o do excesso (\u00dcbermassverbot), dado que tal \u00e9 um desdobramento ou componente da proporcionalidade, para a maioria da doutrina nacional e estrangeira [6], basicamente como ferramenta para verificar a constitucionalidade de viola\u00e7\u00f5es estatais sobre direitos fundamentais.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">O que podemos verificar nos julgados \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o de que a multa de 100% \u00e9 razo\u00e1vel e proporcional, conforme precedentes elencados, mas nenhum que possua fundamentos objetivos e pass\u00edveis de teste, de maneira a dar a impress\u00e3o de que a aferi\u00e7\u00e3o da razoabilidade dos tais 100% da multa est\u00e1 sendo realizada por discricionariedade [7] e opini\u00e3o pessoal do julgador, e n\u00e3o pelas m\u00e1ximas da proporcionalidade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">A utiliza\u00e7\u00e3o da proporcionalidade ou da proibi\u00e7\u00e3o do excesso exigiria a fundamenta\u00e7\u00e3o a partir de demonstra\u00e7\u00e3o de &#8220;colis\u00e3o entre princ\u00edpios&#8221; e, diante disso, seria necess\u00e1rio amealhar todos os socorros \u00e0 solu\u00e7\u00e3o dada pela aplica\u00e7\u00e3o da proporcionalidade. A afirma\u00e7\u00e3o pura e simples de que a multa de determinada porcentagem est\u00e1 dentro da razoabilidade ou proporcionalidade n\u00e3o pode ser aceita, pois vai de encontro \u00e0 necessidade de fundamenta\u00e7\u00e3o das decis\u00f5es judiciais e \u00e0 impossibilidade de julgamento em face de discricionariedade [8].<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Para o caso, sequer colis\u00e3o entre princ\u00edpios pode ser aventada. O princ\u00edpio do n\u00e3o confisco e o da garantia da propriedade [9] n\u00e3o est\u00e3o em jogo. Na verdade, esses princ\u00edpios caminham de m\u00e3os dadas como direitos fundamentais. O ponto \u00e9: 100% \u00e9 confisco? E 30%? E 3.000%? Por outra: qual a porcentagem que seria razo\u00e1vel ou atenderia \u00e0 proporcionalidade e, desse modo, n\u00e3o violasse ambos os princ\u00edpios do n\u00e3o confisco e da garantia da propriedade? Esse \u00e9 o ponto. N\u00e3o h\u00e1 colis\u00e3o entre princ\u00edpios.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Se n\u00e3o h\u00e1 colis\u00e3o entre princ\u00edpios, n\u00e3o h\u00e1 aplica\u00e7\u00e3o da m\u00e1xima de sopesamento de Alexy. N\u00e3o se trata de proporcionalidade, nessa ordem de ideias.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">De outro lado, o argumento dos julgados do car\u00e1ter pedag\u00f3gico da san\u00e7\u00e3o de 100% e, como consequ\u00eancia, os contribuintes n\u00e3o infringiriam mais as leis tribut\u00e1rias, n\u00e3o parece resistir \u00e0 realidade, j\u00e1 que as execu\u00e7\u00f5es fiscais seguem firmes, conforme estat\u00edstica oficial [10] &#8220;Justi\u00e7a em N\u00fameros 2019&#8221;.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">Cremos que a fixa\u00e7\u00e3o de um perfil confiscat\u00f3rio da multa tribut\u00e1ria deva ser fundamentada no que o sistema legal brasileiro oferece como um todo, inclusive na legisla\u00e7\u00e3o civil, at\u00e9 porque a estanqueidade entre Direito privado e Direito p\u00fablico j\u00e1 n\u00e3o resiste a maior enfoque doutrin\u00e1rio, mas certamente sem abreviar a preval\u00eancia do interesse p\u00fablico para o caso.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">______________________________________________________________<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">[1] Em textos nesta ConJur de 2013, aqui, e atualizado em 2020, aqui, Celso de Barros Correia Neto sempre buscou par\u00e2metros para compreender o m\u00e1ximo aceit\u00e1vel para as multas tribut\u00e1rias, apontando a diversidade de tipos de multas e bases de c\u00e1lculo. Vale a leitura.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">[2] Exemplo: ARE-AgR 938538, rel. min Roberto Barroso, com indica\u00e7\u00e3o de diversos precedentes.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">[3] Exemplo: o mesmo julgado acima.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">[4] ALEXY, Robert. Teoria dos direitos fundamentais, 2\u00aa ed. S\u00e3o Paulo: Malheiros, 2005.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">[5] E na pesquisa, vimos que desde 2005 LFS Difini j\u00e1 afirmava que &#8220;n\u00e3o h\u00e1, em nenhum dos casos, o exame diferenciado da tr\u00edplice dimens\u00e3o (adequa\u00e7\u00e3o, necessidade e proporcionalidade em sentido estrito) do princ\u00edpio da proporcionalidade. Em consequ\u00eancia, o STF recorre ao princ\u00edpio da proporcionalidade (&#8230;) em situa\u00e7\u00f5es em que nem mesmo envolvem solu\u00e7\u00e3o e colis\u00f5es entre princ\u00edpios concorrentes.&#8221; ob. cit. p. 131.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">[6] Vasta doutrina estrangeira \u00e9 alinhada, na obra de f\u00f4lego lusitana de Vitalino Canas, entre aqueles que entendem ser &#8220;proporcionalidade&#8221; e &#8220;proibi\u00e7\u00e3o do excesso&#8221; sin\u00f4nimos, e outros que as distinguem: CANAS, Vitalino, O princ\u00edpio da proibi\u00e7\u00e3o do excesso na conforma\u00e7\u00e3o e no contrato de atos legislativos, Almedina, Coimbra, 2017, p.40- .<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">[7] A chamada discricionariedade: &#8220;A decis\u00e3o do caso concreto j\u00e1 n\u00e3o depende das racionais leis da l\u00f3gica, mas da vontade do juiz&#8221;, M\u00e1rio Losano citado pelo prof. Lenio Luiz Streck, que semanalmente nos brinda com sua coluna na ConJur nos dando suas chineladas jur\u00eddicas sobre isso, se nos permite a gra\u00e7a.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">[8] Aqui entendida a palavra discricionariedade nos termos da nota 7 retro.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">[9] Tidos como violados por Luiz Felipe Silveira Difini, que invoca tamb\u00e9m possibilidade de colis\u00e3o com o livre exerc\u00edcio de qualquer trabalho (artigo 5\u00ba, XIII, CF) e o respeito aos valores sociais do trabalho e da livre iniciativa (artigo 1\u00ba, III, CF).\u00a0 Proibi\u00e7\u00e3o de tributos com efeito de confisco, tese apresentada na UFRGS em 2005, em <a href=\"https:\/\/lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/7315\">https:\/\/lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/7315<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\">[10] Mais pontualmente na figura 101, p. 133 em <a href=\"http:\/\/web.trf3.jus.br\/noticias\/uploaddir\/file\/2019\/Relat\u00f3rio%20Justi\u00e7a%20em%20N\u00fameros%202019.pdf\">http:\/\/web.trf3.jus.br\/noticias\/uploaddir\/file\/2019\/Relat\u00f3rio%20Justi\u00e7a%20em%20N\u00fameros%202019.pdf<\/a><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-family: arial, helvetica, sans-serif;\"><strong>FONTE: Conjur &#8211; Por Marcos Luiz de Melo<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Supremo Tribunal Federal tem afirmado h\u00e1 tempos que, regra [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"footnotes":"","_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false}}},"categories":[2],"tags":[],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/paFpWR-3oX","_links":{"self":[{"href":"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13079"}],"collection":[{"href":"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13079"}],"version-history":[{"count":2,"href":"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13079\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13081,"href":"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13079\/revisions\/13081"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13079"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13079"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/bonettiassociados.com.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13079"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}