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ANFAVEA DEFINE PLEITO AO PRÓXIMO GOVERNO

8 de abril de 2022

Entidade se junta a outras organizações para perseguir reforma tributária e redução do custo Brasil.

No próximo mês, o economista paulista Luiz Carlos Moraes encerrará o mandato de três anos na presidência da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Sua gestão ocorreu em um período tenso. Como qualquer outro setor, essa indústria foi abalada pela pandemia. A diferença é que até hoje a escassez de chips eletrônicos, uma das sequelas da crise sanitária, provoca interrupções nas linhas de montagem. E o problema está longe de acabar.

Segundo Moraes, o próximo ciclo de investimentos da indústria automobilística será maior do que o anterior, totalizando R$ 40 bilhões entre 2022 e 2028. O maior desafio, no entanto, para fazer jus a esses planos, é colocar mais brasileiros no mercado de carros zero-quilômetro. Ele reconhece que, além da crise dos semicondutores, o ambiente macroeconômico, com pressão inflacionária e alta dos juros, afasta o brasileiro da compra de bens de maior valor, como automóveis.

A direção da Anfavea prepara-se, agora, para entregar aos candidato à eleição presidencial detalhes das três prioridades que, entende, devem estar no programa do próximo governo: reforma tributária, redução do custo Brasil e descarbonização. Mas esse é um trabalho que fica, agora, para o mineiro Márcio de Lima Leite, diretor jurídico e de relações institucionais da Stellantis, que assumirá a presidência da Anfavea a partir de maio. Moraes continuará no cargo de diretor de assuntos governamentais da Mercedes-Benz. Abaixo, os principais trechos da entrevista que Moraes concedeu ao Valor:

Valor: A experiência da pandemia foi marcante para todos. Como foi no setor automotivo, que ainda enfrenta o drama da falta de semicondutores?

Luiz Carlos Moraes: No começo, um dia, logo após uma reunião com os presidentes das montadoras pensei: esse negócio é um animal grande e complexo. Começamos pelos protocolos de saúde para os empregados, usando experiências de cada empresa em outros países, buscamos linhas de financiamento para fornecedores, ajudamos a consertar respiradores… No fim de 2020 começaram a faltar aço, borracha, resina plástica. Aí percebemos o verdadeiro impacto da pandemia na desorganização da cadeia global de produção. Entramos em 2021 com a falta de semicondutores, que se agravou depois. Por falta desses componentes, em 2021 deixamos de vender 300 mil veículos no Brasil e 10 milhões no mundo.

Valor: Há uma crise global de escassez de suprimentos. Ao mesmo tempo, um cenário macroeconômico no país desfavorável ao consumo. É possível dizer quanto cada um interfere na queda das vendas?

Moraes: É difícil dizer. Concordo que temos no Brasil questões adicionais, como volatilidade maior do câmbio. Mas temos que ser justos. Ninguém pode desconsiderar o impacto da pandemia, que afetou até países como Alemanha e Estados Unidos. A inflação é no mundo todo. Teríamos vendidos 300 mil veículos mais em 2021 não fosse a falta de semicondutores. A prova está nas filas de espera e no aumento de procura por carros usados.

Mais de 60 milhões de consumidores compram carros novos e usados no Brasiltodos os anos

Valor: Mas em 2022 a inflação vem mais forte e os juros, altos…

Moraes: Consideramos isso na nossa previsão conservadora, que indica crescimento de 8,5% nas vendas internas e 9,4% na produção. Percebemos que mesmo que tivéssemos o abastecimento de peças regularizado agora teríamos o efeito da alta nos juros, da renda que não cresceu, de um desemprego ainda elevado… E agora entrou um fato novo: a guerra na Ucrânia. Isso confirma que a recuperação ainda será lenta no nosso setor.

Valor: Preços de itens de primeira necessidade estão subindo muito. Produtos mais caros, como automóveis, não tendem a sofrer com pressão inflacionária? O resultado do primeiro trimestre já foi bem baixo, com queda de mais de 23% nas vendas de veículos em relação a um ano.

Moraes: Concordo. Por isso, trabalhamos para que o governo reduzisse o IPI e insistimos para a necessidade da reforma tributária.

Valor: Ao mesmo tempo, os preços dos carros têm subido…

Moraes: Reajustes em itens como pneus, aço e resinas afetaram o custo e repassamos parte disso aos preços. Além disso, os veículos hoje têm mais conteúdo.

Valor: Quando o senhor assumiu a Anfavea havia uma previsão otimista em relação às reformas estruturais. Mas essa agenda sofreu atrasos. Fica alguma orientação nesse sentido para seu sucessor?

Moraes: Isso está nas mãos do Congresso. Mas podemos influenciar. Deixamos uma semente plantada para a reforma tributária, com redução de IPI em diversos produtos. Acreditamos que, como em outros países, o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) não deveria existir. Apenas o IVA (imposto sobre a venda). Houve reduções de taxas como a da Marinha Mercante (de 25% para 8%). São partes do custo Brasil. Também saiu o programa de renovação da frota de caminhões, um passo importante.

Valor: De que forma a iniciativa privada pode interferir na elaboração das políticas públicas?

Moraes: A Anfavea faz parte da Coalizão Empresarial, que discute mensalmente com o Ministério da Economia. Temos reuniões quinzenais abordando vários temas, como trabalhista, tributário, financiamento… A ideia é criar, junto com a FGV, uma métrica para saber quanto o custo Brasil subiu em relação aos demais países que fazem parte da OCDE. Com informações como essas atuamos junto ao Congresso e ao Executivo. Tentamos eliminar distorções que o Brasil tem. E só tem um jeito de fazer isso quando o assunto está na mão de algum ministério: tem que ir lá e influenciar, convencer. Na Coalizão são tratados só temas horizontais, de interesse de todos. O caso do IPI foi assim. Beneficiou vários produtos. A Anfavea tem um papel importante pelo tamanho do setor, pela capilaridade, por ter uma cadeia muito longa.

O próximo ciclo de investimentos das montadoras no Brasil, entre 2022 e 2028, somará R$ 40 bilhões.

Valor: Em relação aos semicondutores, o setor trabalha em algum projeto de longo prazo?

Moraes: Precisamos ter produção de semicondutores no Brasil. A indústria desses componentes vai quintuplicar de tamanho no mundo. Então, chamamos a Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica), a academia, e estamos conversando sobre como criar um ambiente de negócios que permita a ampliação da indústria de semicondutores no Brasil. Não se trata de resolver o problema deste ano, mas de criar a base para daqui cinco ou dez anos e não sermos tão dependentes. É um exemplo concreto do que podemos fazer em conjunto na indústria de transformação.

Valor: Por outro lado, há problemas estruturais. Há tempos as montadoras têm excesso de capacidade. Isso pode melhorar? Qual é a capacidade atual das fábricas no Brasil?

Moraes: Temos capacidade em torno de 4,7 milhões de veículos por ano (a previsão para 2022 é de 2,4 milhões). Esse excesso continua sendo um problema. E é por isso que queremos reduzir o IPI. Para ter poder ter mais consumidores com poder de compra. Hoje entre 60 milhões e 70 milhões de pessoas no Brasil compram carros todos os anos, incluindo os usados. Como trago mais gente para o novo? Com uma taxa de juros 26%, 27% fica difícil. Há coisas que a Anfavea não consegue resolver – crescimento do país, nível de desemprego e renda são coisas da economia. O que cabe a nós é apontar como carga tributária ou condições de financiamento podem ficar mais aceitáveis.

Valor: E há como tornar o financiamento mais acessível?

Moraes: Uma coisa que temos tratado é a tomada do bem (pelos bancos). O banco cobra um spread adicional porque demora dois anos, em média, para retomar o bem em caso de inadimplência. É um custo adicional que todo o mundo paga quando faz o financiamento. Existe uma ineficiência estrutural legal no Brasil que traz um custo adicional para todos. Por causa de um grupo de inadimplentes, toda a sociedade paga. Nos Estados Unidos, se a pessoa atrasa o pagamento 60 dias lhe tomam o carro.

Valor: Os problemas que hoje envolvem preço do petróleo e Petrobras estimulam o desenvolvimento de energias alternativas para os veículos, como uso de biocombustíveis e eletrificação?

Moraes: A Anfavea apresentou ao governo um estudo sobre descarbonização. Como reduzir os gases efeito estufa e poluentes locais até 2035. Simulamos cenários, com indicações de que até lá 30% dos carros vendidos no país terão algum tipo de eletrificação, sejam híbridos ou 100% elétricos. Levamos em conta necessidades de pontos de recarga e de aumento de geração de energia. É a nossa contribuição para criar uma política pública. Eu não imagino o Brasil importando 2 milhões de veículos elétricos por ano. Temos que preparar a indústria, a cadeia de fornecedores, os concessionários… Com a guerra na Ucrânia, que não estava prevista nesse estudo, o debate ganhou relevância. À questão climática somou-se a geopolítica.

Valor: Como o senhor avalia o debate em torno da desindustrialização no Brasil?

Moraes: Estou muito preocupado com isso. A China está usando o setor automotivo para fazer uma grande transformação tecnológica através da eletrificação. Nós vamos continuar exportando apenas minério de ferro e soja?

Valor: E qual o impacto da eleição presidencial na estratégia do setor?

Moraes: Pretendemos falar com os principais candidatos para pedir que eles incluam em seus programas de governo três prioridades: descarbonização, reforma tributária e redução do custo Brasil. É nesses três temas que a Anfavea continuará trabalhando. A decarbonização, a transformação da mobilidade e o avanço tecnológico trarão muita pesquisa e preparação da mão de obra para um emprego muito melhor não só com o olhar no Brasil, mas para o pais se tornar uma base de exportação. Essa transformação não está só no ambiente da indústria, mas da infraestrutura, no desenvolvimento de biocombustíveis, baterias. São coisas que podem agregar outras áreas, além do fornecedor tradicional.

Valor: As montadoras têm anunciado novos planos de investimentos no Brasil. A Anfavea tem previsão de quanto somam os novos programas?

Moraes: O próximo ciclo de investimentos do setor vai somar R$ 40 bilhões entre 2022 e 2028. O último, que foi de 2019 a 2021, somou R$ 34 bilhões. Tentamos eliminar distorções. Só tem um jeito de fazer isso quando o assunto está na mão de um ministério: tem que ir lá e influenciar, convencer.

FONTE: Valor Econômico. Por Marli Olmos — De São Paulo

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